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10 de dezembro de 2006

Perólas de uma vida composta por outros sonhos.

Num prazo curto de duas semanas duas das turnês mais comentadas do ano protagonizada, por dois ícones mor da nossa mpb (Caetano Veloso e Chico Buarque), passaram por Belo Horizonte e este que vos escreve foi conferir.
Dizendo de forma breve diria que se Chico emociona e Caetano surpreende.
O show de Caetano no dia 25 de novembro de 2006 fora um grande feito. Com casa cheia e com o repertório de(seu mais novo rebento) debaixo do braço o bom baiano realizou uma apresentação espetacular. Jovial como nunca, o cantor esbanjou vitalidade em todos os sentidos. Musicalmente falando, a nova fase de Caê é rock não só na sonoridade, mas também na postura. Acompanhado por um jovem e enxuto trio (composto por baixo, guitarra, bateria e um teclado ocasional) Caetano, mais uma vez, se reinventa. Quem, por exemplo, espereva os tradicionais hits surprendeu - se com a nova roupagem de hinos como "Sampa" (que ganhou um arranjo de caráter psicodélico) e com o set list composto por b - sides como "You Don't Know Me" e "Nine Out of Ten" (ambas do clássico Transa) que abrilhantaram e justificaram o porque de tanto alarde acerca deste novo "Caê" . Em poucos mais de duas horas o cantor mostrou mais uma de várias de suas facetas o que me faz apelidá - lo de "David Bowie dos trópicos" pelo seu aspecto mutante.
Se Caetano é Bowie diria que Chico é o nosso "Leonard Cohen". Digo isso pela gênese autoral de ambos que primam muitos mais, a meu ver, sobre o que está sendo cantado. E como Chico faz tão bem está tarefa...
Na turnê de Carioca a volta do cantor aos palcos é na verdade uma celebração ao formato canção que, ironicamente, ele havia decretado a morte em entrevista recente à Folha de São Pualo. Amarradas como um bom roteiro cinematográfico, as músicas vão se interligando umas as outras, ganhando texturas belíssimas que arracaram lágrimas do público presente.
Tudo começa com a dobradinha "Voltei a Cantar/Duro na Queda" e você já fica estático.
Cada palavra pronunciada por Chico parece ter um tom de súplica ao que está sendo dito e que somado ao desejo fervoroso do público presente conciliam - se num casamento perfeito.
Visuamente o palco é de rara beleza alternado cores e luminosidades, ilustrando em sua plenitudade o calculado set list que opta por não entregar sucessos ao léo, mas sim uma "malha fina" no que de melhor Chico produziu nesses seus 40 anos de carreira. Literamente aqui vale o dizer: Chico nessa sua, ao que dizem por aí, derradeira turnê joga "pérolas aos porcos".
E nós, meros mortais, agradeçemos a ambos que transformam nossos sonhos em canções e nos dar força para seguir em frente. Amém!

1 de dezembro de 2006

Os efeitos da Globalização Musical


O que seria globalização? Esse conceito basicamente todo mundo sabe e aprendeu naquela aula de Geografia. Se você não se lembra eu lhe refresco a mémoria num texto surrupiado lá da Wikipedia:
"A globalização é um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural e espacial e barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX. É um fenómeno observado na necessidade de formar uma Aldeia Global que permita maiores ganhos para os mercados internos já saturados.
A rigor, as sociedades do mundo estão em processo de globalização desde o início da História. Mas o processo histórico a que se denomina Globalização é bem mais recente, datando (dependendo da conceituação e da interpretação) do colapso do bloco socialista e o conseqüente fim da Guerra Fria (entre 1989 e 1991), do refluxo capitalista com a estagnação econômica da URSS (a partir de 1975) ou ainda do próprio fim da Segunda Guerra Mundial.
As principais características da Globalização são a homogeneização dos centros urbanos, a expansão das corporações para regiões fora de seus núcleos geopolíticos, a revolução tecnológica nas comunicações e na electronica, a reorganização geopolítica do mundo em blocos comerciais regionais (não mais ideológicos), a hibridização entre culturas populares locais e uma cultura de massa supostamente "universal", entre outros."
Como vimos, este processo iniciou e se consolidou na década de 90. Mas os Beastie Boys, via Paul's Boutique, anteciparam essa "universalização".
Ainda na era do vinil, os Beastie Boys adetram no fatídico ano de 1989 ao estúdio junto aos Dust Brothers para realização de seu mais audacioso álbum. Até então o que se conhecia da cartilha do rap (assim como qulaquer outro gênero) era que um grupo nunca poderia "trair o movimeto" agregando outros elementos, quaisquer que sejam eles. Mas o trio nova - iorquino optou por ignorar esta regra e seguiu em frente.
Se alguma parcela do público ainda duvidava que a seria possível unir ritmos dispares (como Ill Comunication, o primeiro álbum, já avisava), o grupo provou que era humanamente possível. Agregando ritmos de todo globo como Rock, Jazz, Rap, Samba, Dub, Funk, Soul, Reggae, Country (utilizando mais de 100 samples, marca incrível até hoje) encontram se aqui no universo "beastie" de forma plena.
Elogiadíssimo pela crítica e subestimado pelo público, o disco obteve seu reconhecimento anos mais tarde quando os efeitos da globalização musical tornaram - se vísiveis a olho nu.
Um mundo sem Paul's Boutique não haveria versatildade na música. O rap não teria saido dos guetos para o resto para o globo.
O que seria da carreira de Beck, Moby, Fatboy Silm, DJ Shadow entre tantos outros sem o álbum eu não sei.
Conclamado pela crítica na época como o "Pet Sounds/Dark Side Of The Moon do Hip Hop" e cada vez mais influente, o álbum provou em versos (recheados de citações literárias veja só!) e sonoridades o quão diversificado a música poderia ser, fato que seria comprovado no disco seguinte (o maior, a meu ver, álbum de rap de todos os tempos) Check Your Head. Mas isto fica para depois.

17 de novembro de 2006

Last Night I Dreamt That I Was In Paris With Charlotte Gainsbourg


Sonhos. Projeções. Ilusões. Do que seriam compostas nossas miseráveis vidas sem os sonhos? Um completo disastre.
Noites atrás minha mente tramou algo realmente inacreditavel: idealizei que estava na Paris de Bernardo Bertolucci (via Os Sonhadores) correndo sob a chuva de mãos dadas a Charlotte Gainsbourg, minha nova musa. Sorry Scarlet but...
Meu fascínio por esta bella dona teve inicio ao assitir ao trailer de Science of Sleep (novo de Michel Gondry, ainda inédito por aqui) no qual Gael García Bernal interpreta um homem que oscila entre o mundo dos sonhos e a realidade, cuja musa inspiradora é a própria. Assim como ele, também para mim fora paixão a primeira vista.
Em seguida, fora a vez do belo disco 5:55. Produzido pelo exigente Nigel Godrich (parceiro de Beck, Paul McCartney, Thom Yorke e por aí vai) com o apoio do duo francês Air, que cria o tradicional clima "lounge étereo", e de Jarvis Cocker (ex - Pulp) nas composições, o álbum é uma das mais gratas surpresas de 2006.
Começa a faixa título e a voz de Charlotte vai sendo sorvida aos poucos e cria uma cama deliciosa de melodias, ideais para serem ouvidas em tardes chuvosas, debaixo de um edredom e preferência acompanhada de um bom livro (composto de belas passagens) ou alguém que lhe aqueça o coração. Um disco deveras apaixonante que emociona - me a cada adição.
Pena que tudo fora um mero sonho e, talvez, nem mesmo os famosos Six Degrees of Separation sejam capazes de nos colocarmos frente a frente para um cafezinho em uma viela qualquer parisiana. A realidade é algo que sempre dói e acordar para ela é necessário. Mas, enquanto ainda estou em estado de dormêmcia continuo junto a ela correndo freneticamente pela ruas da cidade que ainda almejo conhecer.

11 de novembro de 2006

Language. Sex. Violence. Other?

O título do último disco do Stereophonics, transcrito acima à guisa de epígrafe, resume muito bem o espírito do mais novo longo de Martin Scorsese, The Departed (Os Infiltrados).
Inspirado em Conflitos Internos (2002), o roteiro em síntese gira em torno da história de dois homens em lados opostos da lei: um é mafioso e se infiltra no departamento de polícia de Boston; o outro é policial e se aproxima secretamente da máfia irlandesa. Quando a violência aumenta e o derramamento de sangue é inevitável, crescem também as suspeitas. Assim cada espião-duplo tem a missão de correr contra o tempo para revelar a identidade do inimigo. Tudo de certa forma com cara do tipo "hummm... já vi este filme". Porém essa analogia na cabe ao filme de Scorsese.
Elementos como sexo e violência (tão trabalhados em outros de seus filmes) aqui são explorados de forma tão densa que faz Cabo do Medo, clássico também de sua autoria, conto da carochinha. A lingugem dos personagens também é carregada de palavrões dos mais variados tipos (que chocariam os puristas) e recheada de conotações sexuais da maneira mais suja possível. Aliás sujeira é que não falta.
A corrupção é o elemento chave da manipulção. Está por todos os lados. Seja por parte da polícia, seja por parte dos criminosos, traficantes etc. Em grande ambos os departementos trabalham de forma conjunta em busca de informações chave. Os ratos estão a solta e conduzem a película.
No campo da atuações, quem rouba a cena, mais uma vez, é Jack Nicholson. Seu personagem. o gangster Frank Costello é sem sombra de dúvida uma das melhores atuações de sua longa carreira. Em entrevista a Rolling Stone Nicholson revelou que o diretor havia idealizado um Costello maléfico, mas nem tanto. O ator resolveu intervir nas características de constiuição do mesmo e o clima esquentou e Nicholson quase pulou fora do barco. Mas no final tudo deu certo. Ponto para ele!
Leonardo DiCaprio e Matt Damon também estão bem em seus respectivos papéis. E isto é muito tratando - se de DiCaprio que, a meu ver, não obteve uma atuação contundente digna de louvor até hoje.
A trilha é um capítulo a parte. Composta por canções setentistas, estão lá os mais variados artistas que Scorsese e, o sempre bom, Howard Shore escolheram a dedo. Então você tem um Stones aqui ("Gimme Shelter" e "Let it Loose"), um Pink Floyd acolá (com a sublime "Comfortable Numb" em cena extremamente sensual) e alguns artistas "b - sides" como o Badfinger (que poderia ser o Beatles, mas a história não deixou) e os Allman Brothers.
A intertextualidade em citações de ícones literários como James Joyce, Freud (mesmo que de forma irônica), entre outros, é algo a se destacar.
Comparado a sua filmografia recente (que inclui os medianos Gangues de Nova York e O Aviador) The Departed está anos luz a frente e coloca novamente Scorsese no famoso Top 5 de filmes do ano. Porém não difere muito de seus trabalhos anteriores, pois dialoga, de forma direta, com a trajetória violenta da construção da América de ontem, hoje e sempre. Ainda bem!
P.S. Falando em "Let it Loose", faixa do clássico Stoneano Exile On The Main Street, em uma das cenas decisivas do filme a capa do disco fora utilizada para uma revelação bombástica. Será que alguém viu? Eu vi!

4 de novembro de 2006

Dois discos. Duas medidas. Ambos para lá de bons.

Dois dos álbuns mais comentados da atualidade são do Caetano Veloso e FutureSex / LoveSounds do Justin Timberlake .
Apesar da categórica distância musical de ambos, os discos trazem em sua gênese um elemento semelhante: “o sangue quente”. Porém, aqui isso se dá por razões distintas.
Como prova, faço uma análise “Chico Picadinha” (ou seja, parte por parte) do que são constituídos, justificando, talvez, o motivo de tanto comentário.

Temas

: Sexo e ódio. Em igual proporção.
FutureSex / LoveSounds: Sexo, mas cantado de forma sexy. Muito sexy.

Alvo

: O disco de Caê só tem, basicamente, um direcionamento: sua ex – mulher Paula Lavigne.
FutureSex / LoveSounds: Sua atual namorada Cameron Diaz.

Por quê?

: O fim de seu conturbado casamento. Daí tanto ódio. O sexo vem da vontade de Caetano mostrar que, como afirma o refrão de “Outro”, ele não se abateu, pois continua na ativa de “cara alegre, cruel, feliz e mau. Com o pau duro”.
FutureSex / LoveSounds: Ao que parece o que Britney Spears não “liberou”, ou custou para “liberar”, Cameron Diaz tem dado a rodo. O quê? Sexo é claro! Eis o motivo de o disco girar em torno basicamente do tema.

Sonoridade:

: Nunca Caetano soou tão rock em sua longa carreira.
FutureSex / LoveSounds: Em seu segundo álbum, Justin acende uma vela para pop de qualidade elevadíssima.

Top 5:

: “Outro”, “Rocks”, “Deusa Urbana”, “Odeio”, “Homem”... Sinto que deixe algumas de fora. Foda!
FutureSex / LoveSounds: “SexyBack”, “Lovestoned”, “Damn Girl”, “Losing My Way” e “Pose” entre tantos outras.

Importância

: Caê esfrega rock na cara do cenário mainstream e da crítica dando lição de como compor um belo disco a várias bandinhas que imperam no dial brasileiro.
FutureSex / LoveSounds: não vai mudar o mundo, mas com certeza rouba o cetro, que um dia já pertenceu a Michael Jackson e Prince. E injeta qualidade nas MTVs por aí. Afinal é o Justin né!

Por fim, é engraçado pensar que à bem pouco tempo odiava por razões inúmeras ambos. Agora basta criarem discos dignos de nota (que figuraram com certeza nas listas de melhores do ano) e tudo muda de figura. É o poder da música se confirmando!

2 de novembro de 2006

The idiot – Crônica de um babaca que sonha ser Beck

Uma das maiores virtudes do ser humano é o seu caráter mutante. De adotar máscaras. Transformar – se em outro. Desvirtuar o que está errado. Saber como virar o jogo na hora certa. Tudo isso em prol da superação dos problemas da vida que se leva.
Tempos atrás acredita eu ser deter este “dom”, pois a felicidade era o meu codinome. Se as coisas não iam bem fazia uso de certo jogo de cintura para que as agruras não me abalassem e seguia em frente sorridente e dançado conforme a música. Mas de uns tempos para cá parece que perdi meus “super poderes”. Parece que problemas do passado (que claro, sempre voltam) tornaram – se algo como vírus que é eliminado, mas ressurgem fortalecidos de tal forma que parecem imbatíveis. Aparentemente sem antídoto.
Nestas horas sonho em ser Beck Hansen, que pode não o cara mais feliz do mundo (afinal de contas ele pariu tempos atrás o disco tristonho, de dar dó, Sea Change), mas não há ninguém no meio musical tão mutante quanto ele. Seus discos são versáteis, poli temáticos, vigorosos, dançantes, belos... Um caminhão de adjetivos é cabível aqui.
Enquanto Bowie e Costello (considerados os camaleões da música) realizam discos focados num único estilo (se é R&B é R&B, se é eletrônico é eletrônico) Beck consegue a façanha de realizar o crossing-over (é assim mesmo que se escreve?) na mesma canção misturando country, rap, batidas electro e por aí vai. Não que ele não tenha realizado discos temáticos (o citado Sea Change, por exemplo, vai pela onda Nick Drakiana. Midinite Vultures é uma viagem pelo universo do funk e soul), mas ainda assim Beck cria álbuns sob a sua ótica. Ou seja: de forma diferenciada.
Prova mor disso é o seu último rebento: The Information. O que o multi instrumentista pretendia no disco anterior, o ótimo Guero, aqui fora alcançado em sua plenitude. Desde Odelay, clássico lançado há uma década atrás, Beck não soa tal genial. Para realização desse pequeno clássico, Beck utilizou uma gama enorme de instrumentos (de xilofones a pick – ups) em prol da criação de canções que refletem a sua personalidade: um tanto quanto atormentada, estranha, mas ainda sim com aquele frescor pop que todos adoram. O mundo agradece.
Não sei se estou certo por acreditar que Beck e sua versatilidade podem ser a soluções dos problemas que me afligem, mas gostaria muito de ser um cara assim, mutante, que sabe dar a volta por cima, de adotar personalidades para solucionar o que deve ser solucionado e depois abandona – lá para retornar a mim mesmo.
Ironicamente, o mais próximo que consigo chegar a Beck é me identificar com duas de suas canções emblemáticas: “Jack – Ass” e “Loser”. Mas hoje ele não é mais assim (acredito) enquanto eu continuo sendo aquele babaca, idiota que causa a irritação e magoa as pessoas que realmente se importam comigo e significam muito para mim.

14 de outubro de 2006

Always isn't always? Bullshit.

Você está em tudo o que vejo.
Você é tudo o que sinto.
Você está em todas as canções que amo.
Você está nas solitárias salas de cinema.
Você está nos filmes que aprecio.
Você é o meu vício.
Você é o motivo dos meus cigarros.
Você é a razão da minha vontade de beber todas as noites.

Você está em todos os lugares.

Você está nos corredores dos shoppings.

Você está nas esquinas escuras da cidade que nunca dorme.

Você está nos livros que admiro.
Você está nos versos que me inspiram.
Você, você sempre você.
Você é a desgraça.
Você é algo que eu odeio!
Você é algo que anseio deixar para sempre.
Mas você faz parte de mim.
E sempre fará.