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1 de setembro de 2007

Heroes of the day: “Extreme Ways”* of Jason Bourne & Paul Greengrass


Dias atrás estávamos eu e meu grande amigo cinéfilo Luiz discutindo, filme a filme, a recente lista publicada pela Bravo! no qual estão dispostos os 100 filmes essenciais segundo a publicação. Aliás, exercício este muito interessante e delicioso. Mas não quero aqui colocá-la em pauta e sim realizar um pequeno questionamento: o porquê a ausência das obras de novos diretores?
Tocar em terreno sagrado é muito válido, principalmente para a nova geração de admiradores do cinema, mas também um pouco “fácil” já que não há muito a se discutir quando se fala de Orson Welles, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Woody Allen etc. São diretores geniais que abriram portas e mentes, influenciando muita gente. Isto é fato e ponto. Se pensarmos na lista citada ao que parece o cinema parou nos anos 70. Porém, de lá para cá muita coisa aconteceu. Será que trabalho da nova geração de diretores como Michel Gondry, Spike Jonze, Fernando Meirelles (único novato na citada lista), François Ozon, Christopher Nolan, Richard Linklater entre tantos outros não são válidos? Dignos de nota? E de fato “uma verdade irritante” (tal como no filme Os Simpsons, em ironia ao documentário Uma verdade Inconveniente).
E dentre os novos diretores decreto hoje o mais novo membro da “academia”: o britânico Paul Greengrass. Sua carreira ainda engatinha eu sei, mas a “passos largos”. E muito me impressiona a maneira que conduz seus filmes: a câmera segue de maneira tensa seguindo cada nuance nos momentos exatos. Seus planos se alternam entre abertos e fechados sem perder a essência. Captura de forma primorosa cada um dos detalhes presentes na fotografia. Retira dos atores de seus atores interpretações no mínimo elogiáveis. E não se trata de um diretor especializado em dramas ou qualquer outro gênero ligado ao mesmo. Sua especialidade são as películas de ação.
Quando Vôo United 93, seu “segundo” filme (seguindo o ponto de vista mercadológico) estreou muita atenção fora dada ao fato de abordar um fato no mínimo perigoso, a ferida dos americanos: 11 de setembro que aqui no caso faz menção ao vôo que não alcançou seus reais objetivos ocasionando, após a queda, a morte de todos os tripulantes e terroristas a bordo. Mas, polêmicas a parte, o filme é realmente impressionante. E digo isso não somente pela carga de realismo apresentada em cenas angustiantes. Assisti-lo é algo que realmente incomoda. Lembro-me até hoje das dores de cabeça geradas ante sua exibição no cinema tamanha a confusão e caos apresentados nas cenas. Tal como nos diálogos da sala de comando do aeroporto que são recheadas de terminologias estranhas aos meus ouvidos e isto me fascinou grandiosamente tal e qual aconteceu ao assistir Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, filme que, aliás, me deu muita dor de cabeça também. Entretanto, ambos os casos são dores de cabeça do bem.
E sua trilogia sobre o personagem de Robert Ludlum, o agente Jason Bourne, também não fica para trás. E falando nela me renderei agora a seu último capítulo: o soberbo Ultimato Bourne.
Na história Jason segue sua busca incessante de sua identidade. Para tanto abandona seu esconderijo e ruma ao redor do globo para findar a missão de um homem só. Agora, o agente encontra no jornalista Simon Ross do The Guardian (publicação inglesa), que acompanha toda a história inescrupulosa da organização secreta Treadstone (renomeada Blackbriar) da qual o próprio Jason fazia parte, a fonte necessária do resgate de sua origem. Porém, o encontro com o mesmo não fora dos mais felizes gerando a morte do repórter e mais uma nova caçada ao agente.
Eletrizante tal como os dois anteriores, em Ultimato Greengrass usufrui bem os milhões de dólares (R$ 125 mi.) utilizados para a realização do filme. E em grande estilo. As locações na Europa e África foram realmente muito bem utilizadas, tamanha a beleza da fotografia e as ótimas tomadas aéreas introduzidas a cada cidade que Bourne passava.
No campo das atuações Matt Damon segue magistral no papel do agente. Julia Stiles cede, mais uma vez, seu brilhantismo a personagem Nick Parsons. Joan Allen volta interpretando bem a personagem Pam Landy. O sempre marcante David Strathairn é Noah Vosen, agente do governo implacável quando o assunto é a morte de Jason Bourne. Da série “coadjuvantes de luxo”, estão lá Daniel Brühl (de Edukators e Adeus Lênin) em cena curta, mas importante na trama, e Albert Finney que em míseros 20 minutos de cena na reta final do filme expõe toda sua grandiosidade como ator (fato que quem já viu Peixe Grande sabe do que estou falando).
Em suma, para finalizar, faço das palavras proferidas por Gregory Kirschiling, crítico do Entertainment Weekly.com, as minhas: “para Greengrass, esses filmes se destacam porque Bourne é um homem real, num mundo real. E ele sustenta uma busca tão mítica e arcaica quanto uma tragédia grega, sua própria identidade”.
Esses e outros fatores fazem de Jason Bourne o agente da vez (já que a série James Bond aparenta entrar nos trilhos, mas aguardaremos ansiosamente por Agente 22 para definir) e de Paul Greengrass um dos melhores diretores da nova safra.

* A ótima “Extreme Ways” do Moby é o tema musical da trilogia de Jason Bourne.

12 de agosto de 2007

Enquanto isso no Brasil...

Este ano estou no paredão. Encurralado. Tudo por um simples motivo: a surpreendente guinada na cena musical brasileira.
Durante anos de dedicação a música pop poucos foram os disco do ala nacional que adentravam a minha tradicional lista dos cinco melhores álbuns do ano. Quando me prestava a pensar nesta categoria (separando os nacionais dos internacionais) o número de participantes era, por vezes, inferior ao total. Então às vezes nem me prestava à sua realização. Não que a música brasileira esteja em estado de putrefação. Muito pelo contrário. A diferença se dá pelo acesso a mesma. Incrivelmente, muitos discos da cena estrangeira chegam as minhas mãos com muito maior facilidade do que os daqui. A nossa distribuição é deveras inferior comparada aos gringos. Mas hoje em dia as coisas têm melhorado graças ao belo trabalho realizado por selos independentes como a Tratore, a Deckdisk e a revista Outra Coisa que aumentaram, consideravelmente, o alcance e a projeção da música produzida aqui. Mas ainda há muito a fazer. Porém, isto é assunto para uma outra ocasião. O que quero aqui é expor minha total surpresa com o nosso cenário musical. Um grande volume de discos de qualidade está sendo produzido este ano! E melhor ainda: oriundos, em sua maioria, da cena independente. Aliás, quem tinha dúvida de que a independência era um caminho perigoso tem bons motivos para mudar de idéia. O fato de artistas, das mais variadas vertentes, como o Pato Fu e Erasmo Carlos estarem fazendo parte do cast da Tratore e da Indie (outro selo independente), respectivamente, são bons exemplos de que este é um grande viés em tempos de crise no mainstream.
A título de exposição, seguem abaixo curtas resenhas sobre alguns discos que devem figurar na sua estante, HD e, claro, nas famosas listinhas de fim de ano:

Erasmo Carlos – Convida: Volume II: O segundo volume da série Convida é uma brasa amora! As releituras aqui realizadas das canções da dupla Erasmo/Roberto (a quem o disco é dedicado) são deliciosas. Difícil é pontuar qual é a melhor. Num disco que se tem Chico Buarque cantando “Olha”, Marisa Monte, estilosa com seu ukelele, na sublime “Tema de não quero ver você triste”, o Skank injetando força em “Bandas dos Contentes”, o Los Hermanos na dramática “Sábado morto” entre tantas outras é um martírio. Duro é o Zeca Pagodinho em “Cama e Mesa”. Mas o resultado final é muito bom. E o melhor de tudo: contando com o aval e os vocais do tremendão.
Ouça: “Ilegal, Imoral ou engorda” com Adriana Calcanhoto.

Canastra – Chega de falsas promessas: Depois da briga e a rescisão contratual com a Sony os cariocas do Canastra se cansaram de “falsas promessas” e voltaram à independência com o disco mais dançante do ano. De “Chevete Vermelho” até “Dallas” o grupo executa canções no qual é impossível ficar parado num caldeirão que mistura rock, jazz, ska e que mais for possível sem patinar em nenhum momento. Pura diversão. Disco curinga para festas chatas.
Ouça: “Miss Simpatia”

Autoramas – Teletransporte: A melhor banda de rock do Brasil em termo de apresentações (que sempre são enérgicas) volta com seu mais novo rebento. Teletransporte é um disco coeso e forte em canções que seguem a linha tradicional do grupo ao misturar surf music, jovem guarda e new wave em linguagem pop. A surpresa é balada “300 km/h”, homenagem indireta ao Rei Roberto de quem Gabriel Thomaz (o frontman do grupo) é grande fã.
Ouça: “Eu mereço”

Orquestra Imperial – Carnaval só ano que vem: Quem já assistiu a apresentação do combo composto pela nata da cena musical carioca sabe o quão infernal é. O Ep lançado antes do álbum dava impressão que o álbum cheio seguiria o mesmo rumo. Mas... aqui a história é outra. Com freio de mão puxado, o disco vai muito mais para o lado “dançar coladinho” do que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Daí o título. Independente disto, o disco é um grande achado. Muito bem produzido pelos grandes Mario Caldato e Kassin, o repertório faz justa homenagem ao samba de Cartola e afins que comandavam a época dourada do verdadeiro samba. A única que destoa desta temática é a tropicalista “Supermercado do amor” cantada pela musa Nina Becker e o gênio Jorge Mautner.
Ouça: “Ereção”

Cachorro Grande – Todos os tempos: Maturidade. De forma árdua, mas consistente. Digo isso porque pessoas como eu que adoravam a porção “rock n’ roll never die” (leia – se Rolling Stones, Small Faces...) dos gaúchos se assustam na primeira audição tamanha a diferença. Focado muito mais no folk e no rock inglês dos anos 90, o disco vai crescendo a cada audição graças a melodias muito bem construídas oscilando entre psicodelismo beatle e a lisergia do Stone Roses. Para os velhos fãs está lá a já clássica “Deixa Fudê”, enérgica como si só.
Ouça: “Quando amanhecer” co–irmã da clássica “Haverst Moon” de Neil Young

E não para por aí! Brevemente textos sobre a revolução criada por Vanessa da Mata, o novo do Pato Fu, o funk curitibano tipo exportação do Bonde do Rolê...

17 de julho de 2007

Bye Bye Mr. Ocean


Ao deparar com mais uma sequência de Ocean's 11 (agora Ocean's Thirteen) os puristas não aprovam. Puristas reclamam em alto e bom som: prefiro a primeira versão. Bom, em suma, puristas serão sempre puristas e retrológos... e não sabem o que estão perdendo.
Ok! A versão orginal dos anos 60 com Frank Sinatra é clássica. É perfeita. Mas há de se vangloriar o trabalho de Steven Soderbergh e o grandioso elenco que, no decorer desta trilogia (que aqui "parece"findar) realizaram um grande trabalho.
A história começa com Reuben Tischkoff (Elliott Gould), aquele homem que bancou financeiramente o assalto triplo aos cassinos de Terry Benedict (Andy Garcia) lembra? Então, Reuben foi traído por Willie Bank (Al Pacino), dono uma rede cassinos premiados. Esta traição fora quase fatal para Reuben. Em tom de vingaça Danny Ocean (George Clooney), Rusty Ryan (Brad Pitt) e sua trupe mais uma vez se reúnem para iniciar um plano no qual o objetivo é derrotar Bank na noite de inauguração de seu mais luxuoso cassino, chamado The Bank, derrotando-o financeiramente e também atingindo sua reputação. A partir daí o desenrolar das tramóias em Ocean's Thirteen é semelhante as tramas anteriores, mas sem sombra de dúvida este é o mais engraçado deles. A canastrice dos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell está aflorada. Chegando a pontos culminates como a cena final que, claro, não irei revelar.
No campo das atuações faltou o glamour do elenco feminino (Julia Roberts e Catherine Zetta-Jones), mas o masculino continua impecável. O destaque mesmo ficou para Al Pacino que rende interpretação elogiosa ao inescrupuloso Mr. Bank fato que não ocorria há um bom tempo (alguém aí falou Advogado do Diabo? Pois é...)
A trilha criada por David Holmes, mais uma vez, se destaca pela qualidade ao mesclar batidas eletrônicas com percussão humana.
Para pontuar de forma final esta resenha resumida e preguiçosa deixo uma mensagem aos puristas lá de cima: existe de forma explicíta uma homenagem a versão orginal em duas falas específicas do filme. Confira lá e depois me conta se valeu ou não.

23 de junho de 2007

The Concept


Há anos o Radiohead lançava o, até hoje maravilhoso e difícil, disco que rachou o conceito sobre música: Kid A. Estranho aos ouvidos e construído em detalhes sinuosos, o álbum perdurou na cabeça de muita gente por anos a fio e muito se debateu acerca do mesmo no seu ano de lançamento (2000). A pergunta daquele ano para qualquer fã de música pop foi: “você ouviu o disco novo do Radiohead”?
Aí você se pergunta o porquê de tanto alarde? E eu respondo: o conceito. Ok! Assimilar a ideologia empregada por Thom Yorke e cia. nunca fora das mais fáceis, mas no disco citado... Digo sem me envergonhar, mas demorei anos para compreender um pouco do universo criado e tão diversificado de Kid A. Se hoje não sou tão “analfabeto” quanto a ele devo dar crédito ainda ao jornalista Simon Reynolds que em ensaio publicado no livro “Beijar o Céu” esmiúça através de entrevistas e declarações pertinentes de sua parte o processo de criação que quase culminou no fim da banda, mas alcançou resultados nunca antes imaginados pela banda.
Introdução feita, venho agora falar do real “objetivo” deste texto: Era Vulgaris, novo álbum do Queens of the Stone Age. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso pontuar: não vou traçar comparações entre ambos. Até porque uma única razão me induziu a juntar Radiohead e QOTSA num mesmo texto: o conceito. Mas se em Kid A o Radiohead desenvolveu o seu próprio (novo) conceito que desvencilhou seu próprio universo e se recriou num outro o mesmo não acontece em Era Vulgaris que soa como os quatro discos anteriores. Porém, entender o que se passa na cabeça de Josh Homme é preciso.
Desde os idos de 1998, quando o Kyuss (sua primeira banda) encerrou as atividades, Josh se viu impelido a ir em frente e o resultado disso foi o próprio QOTSA que debutou no mesmo ano. Agora entender o conceito desenvolvido pela “mente doentia musical” de Homme nunca fora algo dos mais fáceis de interpretar.
Herdando a essência pesada e psicodélica de sua ex – banda Josh foi assimilando os mais variados gêneros para construção sonora que hoje é influência para qualquer banda que se preste a tocar “rock” (Muse, Arctic Monkeys, Pitty...) juntando a essência do pop radiofônico (via Kinks), uma veia oscilante entre punk e o metal, guitarras estridentes, espaciais/chapadas (leia – se de riffs repetitivos), vocais quase sempre limpos, bateria marcante, pulsante e animalesca, um número imenso de convidados dos mais variados tipos (que em Era Vulgaris foram: Trent Reznor(NIN), Julian Casablancas(Strokes) e o velho parceiro Mark Lanegan, que comparecem de forma discreta), letras que versam sobre temas alucinógenos (drogas), sexo, confusões inúmeras, dão o tom, de forma resumida, do que Josh é capaz de assimilar, misturar e criar algo único.
E vêm 2007 e Era Vulgaris chega às lojas sendo tachado por alguns como um disco “chato”, “difícil” e, olha a blasfêmia, o “pior disco do QOTSA”. Calma, calma senhoras e senhores. Olha o exagero. O abuso. Contenha – se, por favor. Tal como Kid A, Era Vulgaris não irá lhe conquistar na primeira audição e talvez nem seguintes se você não entender o que volto a frisar: o conceito.
Até para velhos aficionados como eu o disco não “desceu” muito bem nas primeiras audições, mas perseverar é importante e resultado hoje é bem diferente. Tudo o que afirmei acima como parte constituinte do universo stoner (chapado em português) do grupo está lá diluído, salvo a sonoridade punk que, infelizmente, fora levada junto com Nick Oliveri (baixista e co–fundador). Mas isto não interfere.
O começo com a cadenciada “Turning on the Screw” assusta a quem já está habituado ao fato de que, geralmente, discos da banda começam de forma urgente, mas não se engane: a faixa é mais uma daquelas para entrar no seleto hall de “canções clássicas e enigmáticas”. Logo na seqüência a “coisa esquenta” com o primeiro single, a grudenta “Sick Sick Sick”, que muita bandinha nova venderia a alma para tê-la composto. Vêm “I’m Designer” e sua bateria marcante e precisa. “Into the Hollow” é Black Sabbath em câmera lenta. A baladinha “Make It Wit Chu” (oriunda da última Desert Sessions, projeto paralelo de Josh) é incrivelmente deliciosa dada sua melodia marcante e letra engraçadinha. E falando em letra, salvo a última canção citada, o resto do álbum retrata a tal Era Vulgaris, que nada mais é reflexo da nossa, uma geração totalmente confusa, obsessiva, paranóica. Além das 11 ótimas canções que compõem o álbum aos poucos vão pipocando por aí b – sides sensacionais como a singela “Running Joke” e a própria “Era Vulgaris” que, ironicamente, ficou fora do álbum.
Para finalizar, sempre gosto de lembrar da fatídica apresentação do QOTSA no Rock in Rio III no qual o grupo fora vaiado, injustamente, da primeira a última canção pelos fãs que aguardavam ansiosamente o Iron Maiden . Será que hoje isso aconteceria? Duvido. A banda de 2001 (ano do show) não mudou muito quanto à sonoridade hoje, mas tornou – se um “monstro” muito maior, elogiadíssimo e cultuado, lugar talvez nunca imaginado por Josh Homme. E isto faz do grupo uma das melhores bandas dos últimos anos.
Então não deixe se incluir na sua tradicional lista de melhores do ano Era Vulgaris e tente entender o conceito antes de sair falando mal por aí. O diabo mora nos detalhes.

15 de junho de 2007

Entrevista

Tive a honra de ser entrevistado por um meus hérois (o grande poeta e amigo Juan Fiorini) para um dos espaços mais respeitáveis on - line quando o assunto é cultura: o Nota Independente. Diversificado, como não poderia deixar de ser, o site é um deleite para os grandes admiradores das mais variadas formas de arte existentes no cénario nacional. Através desse link é possível acessar a entrevista na íntegra. Vai lá.

19 de maio de 2007

It beats for you



Tempos em tempos o cenário da cultura pop me surpreende. Anos atrás estava eu começando a desbravar o universo feminino da música (leia - se: PJ Harvey, Tori Amos, Fiona Apple...) quando me deparei com uma resenha na Bizz (se não me engano escrita pelo José Flávio Júnior) de uma, até então, desconhecida cantora que tinha acabado de ter sua dilacerante discografia lançada em solo brasileiro via Trama. Álias, dilacerante é a melhor palavra para descrever os efeitos que Cat Power (aka Chan Marshal) causou em meu coração. Paixão a primeira audição, Cat Power foi capaz de causar - me enorme comoção e até hoje ao ouvi - la a impressão de sentir meu coração em frangalhos ainda permanece viva e latente.


Após um hiato de anos, em 2006, Cat lançou seu até então último álbum The Greatest, e o álbum realmente é impressionante, não devendo em nada a suas obras anteriores. A maneira que ela conduz sua bela voz que somadas as singelas melodias entoadas por pianos, viollões; uma visão de mundo extremamente poética e um certo namoro com o som de Nova Orlenas fizeram do álbum um dos maiores feitos daquele ano. Porém caro leitor, o assunto em voga não seria basicamente este. O que fica circundando minha cabeça é a seguinte questão: o que seria do mundo sem a figura de Cat Power? E se um dia (como, claro irá acontecer) a moça (ok! Nem tão moça assim) partir "desta para uma melhor"? Ou se ela decidir parar de gravar como fez no fim da década 90? Quem irá alimentar esta porção delicada e tão necessária para caleijados ouvidos como o meu? Muitas perguntas ficam no ar e substítutas são de menos. Mas eis que surge lá no Canadá a possível, e talvez melhor, substítuta para vaga: Leslie Feist (aka Feist).


Nascida no Canadá no dia 13 de fevereiro de 1976, Feist faz parte do combo canadense Broken Social Scene e exporadicamente cria álbuns solo. E The Reminder, seu quarto trabalho solo, é o melhor deles.

Lançado em 2007, o disco prima pela sonoridade que popularizou Cat Power, mas, para não soar pastiche da mesma, vai além por dialogar com outras fontes. Utiliza de forma sutil a sonoridade alt. country (via Ryan Adams). Respira a obra viva de divas do country como Emmylou Harris e Lucinda Willians. Deixa - se levar por uma certa porção elétrica de sua sonoridade. E como se não bastasse compõe letras comoventes que permeiam o álbum como um todo.
Este pequeno diagonóstico talvez não ilustre a grandiosidade do trabalho realizado pela cantora, mas o passível exagero acerca do mesmo (já que o crítica internacional não o vê tão importante assim) justifica - se pelo misto de comoção e surpresa causada pela audição dos primeiros trinados de "So Sorry" que me deixaram petrificados pelos seus 3 minutos e 12 segundos de duração. E, sem deixar a "ideologia cair" Feist mantém a cadência delicada até o fim.
Me bastaram duas audições audições e já estou cá de joelhos, com o coração batendo de forma lenta, mas feliz com o resultado galgado pela cantora.
Agora posso dormir um pouco mais tranquilo e idelizando, de forma sonhadora, um possível dueto de Feist e Chan Marshal. Será que meu coração suportaria? Creio que não. Infarte fulminante na certa.

12 de maio de 2007

My idea of version


Na indústria fonográfica existem dois gêneros de álbuns que se destacam quando o assunto é prestar a homenagem ao artista(s) e suas respectivas canções. De um lado temos os castigados tributos que, salvo raras exceções, se destacam num emaranhado de reproduções que, em sua maioria, não acrescentam em nada e, geralmente, deixam uma enorme saudade da original. Nesse campo são tantos exemplos “clássicos” que listá – los é desnecessário.
De um outro lado temos ao que eu chamaria de “ousadia” que acontece quando o artista, literalmente, destrincha a versão original (alterando os arranjos, as letras ou ambos) e tenta aplicar, a sua maneira, as características que lhe agradam e o definem num tom misto de homenagem/versão. E essa é, sem sombra de dúvida, a trilha de maior de dificuldade, pois quando você foge do padrão Cifraclub (site especializado em tablaturas que, confesso, já utilizei por meses a fio quando tinha uma banda cover de Nirvana) periga não agradar tanto o artista homenageado e muito menos o público consumidor. Já ouvi milhares de tentativas frustradas dessa perspectiva. Porém, em toda regra existe uma (ou várias) exceções e uma das soluções ressentes a esse problema é o produtor Mark Ronson.
Deixando todas as dificuldades acima citadas de lado, Mark convocou um time de primeira para executar seu plano monumental de realizar releituras de canções dos mais variados campos da cena musical de ontem e de hoje em Version. Da ala do passado temos uma surpreendente “Stop Me” dos Smiths que, antes, era melancólica, angustiada, dramática... em suma: um clássico da dupla Morrissey/Marr que após a injeção de batidas dançantes e dos vocais de Daniel Merriweather você “quase” (eu disse quase) se esquece da tristeza latente da letra e sorri abertamente. Se até a dupla de compositores aprovou que sou eu para não discordar. E não para por aí. Lily Allen (a garotinha da vez) colabora na versão reggae de “Oh My God” da mais recente sensação do rock britânico, o Kaiser Chiefs. A delicada “Amy” de Ryan Adams vira algo extremamente suingado. A frenética “Just” do Radiohead ganha um naipe de metais sensacional. A electro – pop “Toxic” de Britney Spears vira rap com a honraria de contar com, o hoje falecido, Ol’ Dirty Bastard (ícone do Wu - Tang Clan). Comete logo na abertura uma versão funk instrumental para “God Put A Smile Upon Your Face” e por aí vai. Amy Winehouse, Robbie Willians, Kasabian entre tantos outros colaboram e abrilhantam e esse grande disco de 2007.
E é com um trabalho agradável aos ouvidos como este que Ronson, que já havia estreado bem no campo “solo” em Here Come the Fuzz, adentra a minha galeria de grandes produtores. Ele figura ao lado de ícones como o versátil Rick Rubin, o metódico Nigel Godrich, o especialista em sons sujos Steve Albini e Dave Fridmann (parceiro dos geniais Flaming Lips e Mercury Rev), mas com uma ligeira vantagem: ela dá a “cara à tapa” não somente produzindo álbuns (como disse no post anterior) como também compondo material próprio. Ponto para ele. E olhe que ele está só começando...