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23 de setembro de 2007

Growing up in public*

Semanas atrás obtive umas das experiências que, provavelmente, terei de enfrentar por muitos anos de minha vida: a sala de aula. Porém, numa posição muito diferente que enfrento diariamente na faculdade, pois lá sou aluno e durante estágio sou professor. E o quão difícil é esta tarefa... Como se não bastasse o frio na barriga ocasionado por encarar pessoas completamente diferentes e desconhecidas existe outro fator maior: basicamente, ninguém liga para você. Numa turma de, por exemplo, quarenta alunos se cinco prestarem atenção no trabalho que você gastou horas formulando é pedir demais. Infelizmente, esta é a realidade do ensino de uma forma geral no qual professores não são mais essenciais e os alunos não se dedicam nem ao mínimo de prestar atenção em respeito à presença do professor.
Este quadro deprimente pode ser transposto para várias outras áreas como, por exemplo, o rap norte – americano. Se para cada Jay – Z (exemplo de aluno aplicado que hoje é professor) existe milhares de alunos indisciplinados (Ja Rule, P. Diddy, T.I., Eminen...) que crescem como vírus provando esta máxima.
Recentemente, o mercado mundial presenciou uma batalha de extremos desta sala de aula: um aluno da turma do “fundão” (50 Cent) lançou o desafiou ao “C.D.F” (Kanye West). O embate consistia em: ambos lançaram no mesmo dia (11 de setembro) seus mais novos trabalhos, 50 via Curtis e West com Graduation. O primeiro (brigão por excelência que se gaba de ter levado nove tiros e sobrevivido) afirmou que seria impossível West vender mais cópias que ele na primeira semana e disse sem pestanejar: caso isto aconteça eu desisto de gravar discos solo. West, do seu lado, ouviu tudo e deixou rolar.
Analisando ambos se vê uma enorme diferença. Curtis é, sem sobra de dúvida, um disco fraco. Se comparado aos álbuns anteriores (Get Rich or Die Tryin’ e The Massacre) não apresenta diferenças. Claro, há momentos dignos de nota como “AYO Technology” (com Justin Timberlake e Timbaland) e “Follow My Lead” (com Robin Thricke), mas não garantem a média e a aprovação fica para o ano que vem.
Graduation a história é outra. É perceptível e admirável nas primeiras audições o crescimento do aluno dedicado que Kanye West é. Cada vez mais distante dos “batidões” do gangsta (marca de 50 Cent, por exemplo) West aposta em melodias surpreendentes que dialogam com, por exemplo, com o electro do duo francês Daft Punk (na ótima “Stronger”), utiliza samples da velha guarda da música negra (a belíssima “I Wonder” tem como base “My Song” de Labi Siffre, poeta e compositor) ou deixa o piano conduzir a canção (“Everything I Am”). Como se bastasse, estabelece dialogo não somente com colegas de classe (o sempre aplicado Mos Def marca presença) como também em outras áreas via Chris Martin do Coldplay que aparece em “Homecoming”. E sem deixar de render homenagens a quem merece “Big Brother” está lá dedicada explicitamente ao mestre (o citado Jay – Z).
E o resultado final nesta verdadeira batalha de gigantes teve como vencedor, e de forma merecida, Kanye West que vendeu 957 mil cópias contra 691 mil do adversário.
Por fim, cito sabiás palavras proferidas por West, pois como afirma na abertura de Graduation em “Good Morning”: “people graduate but still stupid”. Sim, ele já alcançou a graduação, mesmo se registrando tardiamente (Late Registration, grande disco anterior a este) e ruma para a pós, mas almeja algo ainda melhor. Não se cansa de crescer. E digo não somente em público, mas também como pessoa já que anseia algo melhor não somente para si: busca melhorias também para o mundo (para quem não sabe West é ativista político e participou do Live Earth evento organizado por Al Gore).
E que fiquei a lição para 50 Cent e seus asseclas: seus dias de baderna estão contados. E se você quiser sair mesmo dessa vida Kanye pode lhe ajudar. Dias atrás ele ajudou ao Common a produzir um discão (Finding Forever) coisa que ele não fazia há tempos...

* Em referência ao álbum de Lou Reed lançado em 1980.

22 de setembro de 2007

Great Expectations*

“Pouca gente se lembra do Nirvana tocando no terceiro palco do Reading Festival”.

Não me lembro quem proferiu esta célebre frase citada acima (Nick Hornby? Tony Parsons? Simon Reynolds?... Hum... deixa para lá), mas a mesma fora bastante representativa. Digo isso porque enquanto meia dúzia de pessoas assistia ao grupo de Kurt Cobain e companhia em 1990, no ano seguinte o grupo lançaria Nevermind e graças a “Smells Like Teen Spirit” foram içados do palco três para o um a tamanha a projeção alcançada.
Trago isso para 2007 e vejo basicamente o mesmo acontecer já que, salvo as dividas proporções, a paulistana Céu traça trajetória semelhante.
A primeira apresentação da cantora em solo mineiro fora antológica tal como o grupo de Seattle que debutava na Inglaterra, mas poucos estavam contemplando-a. Digamos que uma média de 10% do público presente estava lá para vê-la, pois o restante estavam na Estação do Conde para ver o celebrado Funk Como Le Gusta ou curtir a noite de sexta-feira. E fora completamente visível este fato durante o show já que a turma do gargarejo fazia bonito entoando todas as canções em uníssono, admirando cada nuance de Céu que dançava timidamente sobre o palco durante as canções, cativava pela graciosidade e, claro, sua rara beleza natural que não necessita de “adereços” para ser exibida. É como Lucio Maia, da Nação Zumbi, disse certa vez: “Céu poderia ficar pagando de Beyoncé, mas não o faz”.
Sobre o desempenho da cantora posso dizer que a sua voz fora uma grande surpresa. Se em disco (o auto-intitulado Céu de 2005) ela já soava maravilhosa ao – vivo se faz ainda mais já que o ar levemente pasteurizado das gravações via estúdio dão lugar a simplicidade e a segurança de uma Billie Holliday.
O repertório, executado nos mínimos detalhes, há de se louvar e congratular a banda de apoio que atuou de forma impecável.
A sonoridade de Céu gira em torno de tantos gêneros que fica difícil classificá-la. Suas canções apresentam desde características urbanas (o rap, por exemplo) a raízes africanas (sua grande paixão confessa) como o reggae, o dub, o jazz... E tudo isso está tão bem diluído e palatável que impressiona aos ouvidos.
Por fim, afirmo, com absoluta certeza, que pouca gente irá se lembrar da apresentação de Céu no dia 21 de setembro de 2007 em Belo Horizonte. Porém, as chances da cantora ser a próxima next big thing são grandes. Se 2007 fora, de forma merecida, o ano de consolidação de Vanessa da Mata, 2008 tem tudo para ser o ano de Céu que vem conquistando aos poucos seu público e somado a crítica que segue vangloriando seu trabalho a faz a grande esperança do cenário nacional. E que venha seu segundo álbum para sacramentar!
* Em referência a clássica obra da literatura realista de Charles Dickens

9 de setembro de 2007

A Pain That I'm Used to*


Você acredita que música pode salver vidas? Caso afirmativa a resposta você já fora salvo alguma vez? Pois eu digo sem pestanejar que fui por várias vezes. Mas nada de suícidio aqui. Quando falo em ser salvo faço menção a reviravoltas na vida. Ao famoso termo "dar a volta por cima" para seguir em frente. Como exemplo, posso citar o fato de Summerteeth do Wilco (que nada mais é que um verdadeiro manual de como superar as dores pós - relaciomaneto findado) ter me dado bastante força anos atrás.
Sei que encontrar respostas em canções é um misto de Rob Fleming sindrome como também uma certa dose de infantilidade, mas este sou eu. O que posso fazer?
Mas se para cada Summerteeth existe seu réves então está aí West novo álbum da maravilhosa cantora e musa country Lucinda Willians.
Diferente dos álbuns anteriores o disco tem como essência a tristeza latente. E para tanto, essa novidade assusta na primeira audição a velhos fãs como eu habituados a sua voz rasgante, precisa e potente. A energia de antes agora ganha placidez. E não falo somente da voz: as guitarras de outrora que antes emulavam a sua porção Stones (via Keith Richards) dão lugar a sonoridades sutis e violões muito bem encaixados, docemente melodiosos.
Os títulos das canções também são um viés para compreender o novo universo adentrado por Willians: "Learning How To Live", "Fancy Funeral", "Rescue", "Where Is My Love?" e "Everything Has Changed" são alguns exemplos.
Há quem pense que o fato de ouvir constantemente canções tristes a tornam uma pessoa como tal. Porém, não enxergo nessa ótica. Há momentos que se faz necessário "curtir" um pouco da tristeza. Tal como nas cenas finais de Elizabethtown, dirigido por Cameron Crowe, onde Clare (personagem de Kirsten Dunst) diz a Drew Baylor (personagem interpretado por Orlando Bloom): "curta a tristeza intensamente por cinco minutos e depois esqueça - a". West, eu sei, não tem cinco minutos de duração (na verdade são 68), mas este é um dos raros casos que, como diria o falecido Jeff Buckley, a tristeza ganha contornos brilhantes. E Lucinda o faz muito bem. E a vida segue...
* Canção emblemática do Depeche Mode

1 de setembro de 2007

Heroes of the day: “Extreme Ways”* of Jason Bourne & Paul Greengrass


Dias atrás estávamos eu e meu grande amigo cinéfilo Luiz discutindo, filme a filme, a recente lista publicada pela Bravo! no qual estão dispostos os 100 filmes essenciais segundo a publicação. Aliás, exercício este muito interessante e delicioso. Mas não quero aqui colocá-la em pauta e sim realizar um pequeno questionamento: o porquê a ausência das obras de novos diretores?
Tocar em terreno sagrado é muito válido, principalmente para a nova geração de admiradores do cinema, mas também um pouco “fácil” já que não há muito a se discutir quando se fala de Orson Welles, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Woody Allen etc. São diretores geniais que abriram portas e mentes, influenciando muita gente. Isto é fato e ponto. Se pensarmos na lista citada ao que parece o cinema parou nos anos 70. Porém, de lá para cá muita coisa aconteceu. Será que trabalho da nova geração de diretores como Michel Gondry, Spike Jonze, Fernando Meirelles (único novato na citada lista), François Ozon, Christopher Nolan, Richard Linklater entre tantos outros não são válidos? Dignos de nota? E de fato “uma verdade irritante” (tal como no filme Os Simpsons, em ironia ao documentário Uma verdade Inconveniente).
E dentre os novos diretores decreto hoje o mais novo membro da “academia”: o britânico Paul Greengrass. Sua carreira ainda engatinha eu sei, mas a “passos largos”. E muito me impressiona a maneira que conduz seus filmes: a câmera segue de maneira tensa seguindo cada nuance nos momentos exatos. Seus planos se alternam entre abertos e fechados sem perder a essência. Captura de forma primorosa cada um dos detalhes presentes na fotografia. Retira dos atores de seus atores interpretações no mínimo elogiáveis. E não se trata de um diretor especializado em dramas ou qualquer outro gênero ligado ao mesmo. Sua especialidade são as películas de ação.
Quando Vôo United 93, seu “segundo” filme (seguindo o ponto de vista mercadológico) estreou muita atenção fora dada ao fato de abordar um fato no mínimo perigoso, a ferida dos americanos: 11 de setembro que aqui no caso faz menção ao vôo que não alcançou seus reais objetivos ocasionando, após a queda, a morte de todos os tripulantes e terroristas a bordo. Mas, polêmicas a parte, o filme é realmente impressionante. E digo isso não somente pela carga de realismo apresentada em cenas angustiantes. Assisti-lo é algo que realmente incomoda. Lembro-me até hoje das dores de cabeça geradas ante sua exibição no cinema tamanha a confusão e caos apresentados nas cenas. Tal como nos diálogos da sala de comando do aeroporto que são recheadas de terminologias estranhas aos meus ouvidos e isto me fascinou grandiosamente tal e qual aconteceu ao assistir Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, filme que, aliás, me deu muita dor de cabeça também. Entretanto, ambos os casos são dores de cabeça do bem.
E sua trilogia sobre o personagem de Robert Ludlum, o agente Jason Bourne, também não fica para trás. E falando nela me renderei agora a seu último capítulo: o soberbo Ultimato Bourne.
Na história Jason segue sua busca incessante de sua identidade. Para tanto abandona seu esconderijo e ruma ao redor do globo para findar a missão de um homem só. Agora, o agente encontra no jornalista Simon Ross do The Guardian (publicação inglesa), que acompanha toda a história inescrupulosa da organização secreta Treadstone (renomeada Blackbriar) da qual o próprio Jason fazia parte, a fonte necessária do resgate de sua origem. Porém, o encontro com o mesmo não fora dos mais felizes gerando a morte do repórter e mais uma nova caçada ao agente.
Eletrizante tal como os dois anteriores, em Ultimato Greengrass usufrui bem os milhões de dólares (R$ 125 mi.) utilizados para a realização do filme. E em grande estilo. As locações na Europa e África foram realmente muito bem utilizadas, tamanha a beleza da fotografia e as ótimas tomadas aéreas introduzidas a cada cidade que Bourne passava.
No campo das atuações Matt Damon segue magistral no papel do agente. Julia Stiles cede, mais uma vez, seu brilhantismo a personagem Nick Parsons. Joan Allen volta interpretando bem a personagem Pam Landy. O sempre marcante David Strathairn é Noah Vosen, agente do governo implacável quando o assunto é a morte de Jason Bourne. Da série “coadjuvantes de luxo”, estão lá Daniel Brühl (de Edukators e Adeus Lênin) em cena curta, mas importante na trama, e Albert Finney que em míseros 20 minutos de cena na reta final do filme expõe toda sua grandiosidade como ator (fato que quem já viu Peixe Grande sabe do que estou falando).
Em suma, para finalizar, faço das palavras proferidas por Gregory Kirschiling, crítico do Entertainment Weekly.com, as minhas: “para Greengrass, esses filmes se destacam porque Bourne é um homem real, num mundo real. E ele sustenta uma busca tão mítica e arcaica quanto uma tragédia grega, sua própria identidade”.
Esses e outros fatores fazem de Jason Bourne o agente da vez (já que a série James Bond aparenta entrar nos trilhos, mas aguardaremos ansiosamente por Agente 22 para definir) e de Paul Greengrass um dos melhores diretores da nova safra.

* A ótima “Extreme Ways” do Moby é o tema musical da trilogia de Jason Bourne.

12 de agosto de 2007

Enquanto isso no Brasil...

Este ano estou no paredão. Encurralado. Tudo por um simples motivo: a surpreendente guinada na cena musical brasileira.
Durante anos de dedicação a música pop poucos foram os disco do ala nacional que adentravam a minha tradicional lista dos cinco melhores álbuns do ano. Quando me prestava a pensar nesta categoria (separando os nacionais dos internacionais) o número de participantes era, por vezes, inferior ao total. Então às vezes nem me prestava à sua realização. Não que a música brasileira esteja em estado de putrefação. Muito pelo contrário. A diferença se dá pelo acesso a mesma. Incrivelmente, muitos discos da cena estrangeira chegam as minhas mãos com muito maior facilidade do que os daqui. A nossa distribuição é deveras inferior comparada aos gringos. Mas hoje em dia as coisas têm melhorado graças ao belo trabalho realizado por selos independentes como a Tratore, a Deckdisk e a revista Outra Coisa que aumentaram, consideravelmente, o alcance e a projeção da música produzida aqui. Mas ainda há muito a fazer. Porém, isto é assunto para uma outra ocasião. O que quero aqui é expor minha total surpresa com o nosso cenário musical. Um grande volume de discos de qualidade está sendo produzido este ano! E melhor ainda: oriundos, em sua maioria, da cena independente. Aliás, quem tinha dúvida de que a independência era um caminho perigoso tem bons motivos para mudar de idéia. O fato de artistas, das mais variadas vertentes, como o Pato Fu e Erasmo Carlos estarem fazendo parte do cast da Tratore e da Indie (outro selo independente), respectivamente, são bons exemplos de que este é um grande viés em tempos de crise no mainstream.
A título de exposição, seguem abaixo curtas resenhas sobre alguns discos que devem figurar na sua estante, HD e, claro, nas famosas listinhas de fim de ano:

Erasmo Carlos – Convida: Volume II: O segundo volume da série Convida é uma brasa amora! As releituras aqui realizadas das canções da dupla Erasmo/Roberto (a quem o disco é dedicado) são deliciosas. Difícil é pontuar qual é a melhor. Num disco que se tem Chico Buarque cantando “Olha”, Marisa Monte, estilosa com seu ukelele, na sublime “Tema de não quero ver você triste”, o Skank injetando força em “Bandas dos Contentes”, o Los Hermanos na dramática “Sábado morto” entre tantas outras é um martírio. Duro é o Zeca Pagodinho em “Cama e Mesa”. Mas o resultado final é muito bom. E o melhor de tudo: contando com o aval e os vocais do tremendão.
Ouça: “Ilegal, Imoral ou engorda” com Adriana Calcanhoto.

Canastra – Chega de falsas promessas: Depois da briga e a rescisão contratual com a Sony os cariocas do Canastra se cansaram de “falsas promessas” e voltaram à independência com o disco mais dançante do ano. De “Chevete Vermelho” até “Dallas” o grupo executa canções no qual é impossível ficar parado num caldeirão que mistura rock, jazz, ska e que mais for possível sem patinar em nenhum momento. Pura diversão. Disco curinga para festas chatas.
Ouça: “Miss Simpatia”

Autoramas – Teletransporte: A melhor banda de rock do Brasil em termo de apresentações (que sempre são enérgicas) volta com seu mais novo rebento. Teletransporte é um disco coeso e forte em canções que seguem a linha tradicional do grupo ao misturar surf music, jovem guarda e new wave em linguagem pop. A surpresa é balada “300 km/h”, homenagem indireta ao Rei Roberto de quem Gabriel Thomaz (o frontman do grupo) é grande fã.
Ouça: “Eu mereço”

Orquestra Imperial – Carnaval só ano que vem: Quem já assistiu a apresentação do combo composto pela nata da cena musical carioca sabe o quão infernal é. O Ep lançado antes do álbum dava impressão que o álbum cheio seguiria o mesmo rumo. Mas... aqui a história é outra. Com freio de mão puxado, o disco vai muito mais para o lado “dançar coladinho” do que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Daí o título. Independente disto, o disco é um grande achado. Muito bem produzido pelos grandes Mario Caldato e Kassin, o repertório faz justa homenagem ao samba de Cartola e afins que comandavam a época dourada do verdadeiro samba. A única que destoa desta temática é a tropicalista “Supermercado do amor” cantada pela musa Nina Becker e o gênio Jorge Mautner.
Ouça: “Ereção”

Cachorro Grande – Todos os tempos: Maturidade. De forma árdua, mas consistente. Digo isso porque pessoas como eu que adoravam a porção “rock n’ roll never die” (leia – se Rolling Stones, Small Faces...) dos gaúchos se assustam na primeira audição tamanha a diferença. Focado muito mais no folk e no rock inglês dos anos 90, o disco vai crescendo a cada audição graças a melodias muito bem construídas oscilando entre psicodelismo beatle e a lisergia do Stone Roses. Para os velhos fãs está lá a já clássica “Deixa Fudê”, enérgica como si só.
Ouça: “Quando amanhecer” co–irmã da clássica “Haverst Moon” de Neil Young

E não para por aí! Brevemente textos sobre a revolução criada por Vanessa da Mata, o novo do Pato Fu, o funk curitibano tipo exportação do Bonde do Rolê...

17 de julho de 2007

Bye Bye Mr. Ocean


Ao deparar com mais uma sequência de Ocean's 11 (agora Ocean's Thirteen) os puristas não aprovam. Puristas reclamam em alto e bom som: prefiro a primeira versão. Bom, em suma, puristas serão sempre puristas e retrológos... e não sabem o que estão perdendo.
Ok! A versão orginal dos anos 60 com Frank Sinatra é clássica. É perfeita. Mas há de se vangloriar o trabalho de Steven Soderbergh e o grandioso elenco que, no decorer desta trilogia (que aqui "parece"findar) realizaram um grande trabalho.
A história começa com Reuben Tischkoff (Elliott Gould), aquele homem que bancou financeiramente o assalto triplo aos cassinos de Terry Benedict (Andy Garcia) lembra? Então, Reuben foi traído por Willie Bank (Al Pacino), dono uma rede cassinos premiados. Esta traição fora quase fatal para Reuben. Em tom de vingaça Danny Ocean (George Clooney), Rusty Ryan (Brad Pitt) e sua trupe mais uma vez se reúnem para iniciar um plano no qual o objetivo é derrotar Bank na noite de inauguração de seu mais luxuoso cassino, chamado The Bank, derrotando-o financeiramente e também atingindo sua reputação. A partir daí o desenrolar das tramóias em Ocean's Thirteen é semelhante as tramas anteriores, mas sem sombra de dúvida este é o mais engraçado deles. A canastrice dos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell está aflorada. Chegando a pontos culminates como a cena final que, claro, não irei revelar.
No campo das atuações faltou o glamour do elenco feminino (Julia Roberts e Catherine Zetta-Jones), mas o masculino continua impecável. O destaque mesmo ficou para Al Pacino que rende interpretação elogiosa ao inescrupuloso Mr. Bank fato que não ocorria há um bom tempo (alguém aí falou Advogado do Diabo? Pois é...)
A trilha criada por David Holmes, mais uma vez, se destaca pela qualidade ao mesclar batidas eletrônicas com percussão humana.
Para pontuar de forma final esta resenha resumida e preguiçosa deixo uma mensagem aos puristas lá de cima: existe de forma explicíta uma homenagem a versão orginal em duas falas específicas do filme. Confira lá e depois me conta se valeu ou não.

23 de junho de 2007

The Concept


Há anos o Radiohead lançava o, até hoje maravilhoso e difícil, disco que rachou o conceito sobre música: Kid A. Estranho aos ouvidos e construído em detalhes sinuosos, o álbum perdurou na cabeça de muita gente por anos a fio e muito se debateu acerca do mesmo no seu ano de lançamento (2000). A pergunta daquele ano para qualquer fã de música pop foi: “você ouviu o disco novo do Radiohead”?
Aí você se pergunta o porquê de tanto alarde? E eu respondo: o conceito. Ok! Assimilar a ideologia empregada por Thom Yorke e cia. nunca fora das mais fáceis, mas no disco citado... Digo sem me envergonhar, mas demorei anos para compreender um pouco do universo criado e tão diversificado de Kid A. Se hoje não sou tão “analfabeto” quanto a ele devo dar crédito ainda ao jornalista Simon Reynolds que em ensaio publicado no livro “Beijar o Céu” esmiúça através de entrevistas e declarações pertinentes de sua parte o processo de criação que quase culminou no fim da banda, mas alcançou resultados nunca antes imaginados pela banda.
Introdução feita, venho agora falar do real “objetivo” deste texto: Era Vulgaris, novo álbum do Queens of the Stone Age. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso pontuar: não vou traçar comparações entre ambos. Até porque uma única razão me induziu a juntar Radiohead e QOTSA num mesmo texto: o conceito. Mas se em Kid A o Radiohead desenvolveu o seu próprio (novo) conceito que desvencilhou seu próprio universo e se recriou num outro o mesmo não acontece em Era Vulgaris que soa como os quatro discos anteriores. Porém, entender o que se passa na cabeça de Josh Homme é preciso.
Desde os idos de 1998, quando o Kyuss (sua primeira banda) encerrou as atividades, Josh se viu impelido a ir em frente e o resultado disso foi o próprio QOTSA que debutou no mesmo ano. Agora entender o conceito desenvolvido pela “mente doentia musical” de Homme nunca fora algo dos mais fáceis de interpretar.
Herdando a essência pesada e psicodélica de sua ex – banda Josh foi assimilando os mais variados gêneros para construção sonora que hoje é influência para qualquer banda que se preste a tocar “rock” (Muse, Arctic Monkeys, Pitty...) juntando a essência do pop radiofônico (via Kinks), uma veia oscilante entre punk e o metal, guitarras estridentes, espaciais/chapadas (leia – se de riffs repetitivos), vocais quase sempre limpos, bateria marcante, pulsante e animalesca, um número imenso de convidados dos mais variados tipos (que em Era Vulgaris foram: Trent Reznor(NIN), Julian Casablancas(Strokes) e o velho parceiro Mark Lanegan, que comparecem de forma discreta), letras que versam sobre temas alucinógenos (drogas), sexo, confusões inúmeras, dão o tom, de forma resumida, do que Josh é capaz de assimilar, misturar e criar algo único.
E vêm 2007 e Era Vulgaris chega às lojas sendo tachado por alguns como um disco “chato”, “difícil” e, olha a blasfêmia, o “pior disco do QOTSA”. Calma, calma senhoras e senhores. Olha o exagero. O abuso. Contenha – se, por favor. Tal como Kid A, Era Vulgaris não irá lhe conquistar na primeira audição e talvez nem seguintes se você não entender o que volto a frisar: o conceito.
Até para velhos aficionados como eu o disco não “desceu” muito bem nas primeiras audições, mas perseverar é importante e resultado hoje é bem diferente. Tudo o que afirmei acima como parte constituinte do universo stoner (chapado em português) do grupo está lá diluído, salvo a sonoridade punk que, infelizmente, fora levada junto com Nick Oliveri (baixista e co–fundador). Mas isto não interfere.
O começo com a cadenciada “Turning on the Screw” assusta a quem já está habituado ao fato de que, geralmente, discos da banda começam de forma urgente, mas não se engane: a faixa é mais uma daquelas para entrar no seleto hall de “canções clássicas e enigmáticas”. Logo na seqüência a “coisa esquenta” com o primeiro single, a grudenta “Sick Sick Sick”, que muita bandinha nova venderia a alma para tê-la composto. Vêm “I’m Designer” e sua bateria marcante e precisa. “Into the Hollow” é Black Sabbath em câmera lenta. A baladinha “Make It Wit Chu” (oriunda da última Desert Sessions, projeto paralelo de Josh) é incrivelmente deliciosa dada sua melodia marcante e letra engraçadinha. E falando em letra, salvo a última canção citada, o resto do álbum retrata a tal Era Vulgaris, que nada mais é reflexo da nossa, uma geração totalmente confusa, obsessiva, paranóica. Além das 11 ótimas canções que compõem o álbum aos poucos vão pipocando por aí b – sides sensacionais como a singela “Running Joke” e a própria “Era Vulgaris” que, ironicamente, ficou fora do álbum.
Para finalizar, sempre gosto de lembrar da fatídica apresentação do QOTSA no Rock in Rio III no qual o grupo fora vaiado, injustamente, da primeira a última canção pelos fãs que aguardavam ansiosamente o Iron Maiden . Será que hoje isso aconteceria? Duvido. A banda de 2001 (ano do show) não mudou muito quanto à sonoridade hoje, mas tornou – se um “monstro” muito maior, elogiadíssimo e cultuado, lugar talvez nunca imaginado por Josh Homme. E isto faz do grupo uma das melhores bandas dos últimos anos.
Então não deixe se incluir na sua tradicional lista de melhores do ano Era Vulgaris e tente entender o conceito antes de sair falando mal por aí. O diabo mora nos detalhes.