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11 de novembro de 2007

REQUIEM POUR UNE ARTIST

Pela primeira vez em quase três anos deste espaço publico algo que não seja de minha autoria. E, para começar bem, tenho a honra de postar as considerações de Juan Fiorini (poeta, escritor, agitador cultural e, nas horas vagas, meu grande amigo) sobre o obra prima de Silvie Simmons, Um punhado de Gitanes, que esmiuça a vida e a obra do gênio Serge Gainsbourg.



“Il y a une trilogie dans ma vie. Un triangle, dirons-nous, équilateral que est la fummé enfin, les Gitanes – l’èthylisme, et la fille. Je n’ai pás dit isocèle, j’ai dit équilateral. Mais tout ça avec um background me mec initié à la beauté, à la peinture.”*

Em Um punhado de Gitanes – Serge Gainsbourg, Sylvie Simmons, jornalista de rock renomada procura definir e falar um pouco sobre Serge Gainsbourg, o mito e ícone pop francês, um artista tão versátil quanto polêmico.
Compositor, escritor, diretor / roteirista de cinema, cantor, fotógrafo, intelectual, artista plástico, ator, bêbado, provocador, amante e fumante exacerbado de cigarros Gitanes (cinco maços por dia!!!), este misto de Bukowski com Barry White apresentou a elegante e ímpar chanson française ao mundo pop, namorou beldades (Brigitte Bardot e Jane Birkin, só para citar as mais conhecidas), criou o pop francês – até então a música francesa era motivo de chacota pelo resto da Europa, principalmente entre os ingleses, numa época em que os Beatles e os Rolling Stones eram referências mundiais – e foi o autor / cantor do talvez maior hino musical kitsch e sexy do planeta: “Je T’aime, moi non plus”, uma verdadeira “Stairway to Heaven” das camas redondas.
Dona de uma maneira deliciosamente descolada de escrever, que permite uma leitura objetiva e com poder de entretenimento excelente, Sylvie aborda desde o nascimento de Serge (cujo nome verdadeiro era Lucien Ginsburg, filho de judeus russos), sua juventude, suas primeiras aparições no mundo artístico – iniciando nas artes plásticas e logo após nos pianos dos clubes parisienses –, sua crescente fama, suas manias, suas crises, até a degeneração, encarada com uma classe que só um francês sabe como, bien sûr. O livro também aproveita para expor fatos como suas parcerias musicais com verdadeiras divas chansonniers como Juliette Greco e Françoise Hardy, seus sucessos e insucessos, fatos pitorescos advindos da excentricidade do artista, renomado ainda que tardiamente (o sucesso só viria a brilhar para ele em 1969, embora seu primeiro álbum tenha sido lançado em 1958).
E tudo não pára por aí: no final do livro há também um apêndice com várias citações do enfant térrible, uma discografia pra lá de completa, uma relação de todos os trabalhos feitos para a televisão e cinema e sugestões de referências (ótimas) para gainsbourgólogo nenhum se queixar.
Serge morreu em 1991. Mas para muitos não morreu. Uma inscrição na parede da casa número 5 da Rue de Verneuil, no bairro de Saint Germain, em Paris, diz que “Serge não morreu. Ele está no céu, trepando”. A única e melhor conclusão é a de que este livro é um passeio delicioso pela vida de um dos raros homens que soube talhar a grife da polêmica de maneira fatalista-niilista, um homem que sabia que “la mort est toujour présent, si on n’est pas con”(“A morte está sempre presente, se não formos bobos”), mas que estava igualmente convencido de que por algum motivo isso não aconteceria com ele. Un suicide optimiste, enfin.

*“Há uma trilogia na minha vida, um triângulo eqüilateral, por assim dizer, de Gitanes, alcoolismo e mulheres. Repare que eu não disse isósceles, disse eqüilátero. Mas tudo isso é fruto da formação de um homem que foi iniciado na beleza através de arte.”

Por Juan Fiorini

4 de novembro de 2007

Diary of a madman: Indie 2007

Fotos: Divulgação



Aconteceu entre os dias 05 e 11 de outubro a sétima edição da mais tradicional Mostra Mundial de Cinema de Belo Horizonte: o Indie.
Não tão diversificada quanto às de São Paulo e Rio de Janeiro, mas tão importante quanto, a versão 2007 fora de longe uma das melhores dos últimos anos graças a uma programação que agradou a “gregos e troianos” e a exímia organização.
Foram 129 filmes de 23 países exibidos nas salas do Usina Cine Clube e no Espaço Humebrto Mauro e subdivididos em várias categorias que iam desde pré-estréias (a Mostra Mundial), documentários musicais (Música do Underground), a sessão “nostalgia” dedicada a diretores clássicos (Indie Retrô), o atual cinema nacional (Indie Brasil) entre outras.
Segue abaixo a relação de alguns filmes, relatados tal como um diário de bordo, que este que vos escreve assistiu e recomenda como também algumas pequenas considerações sobre o dia a dia de quem, na medida do possível, acompanhou a correria/loucura de sessões disputadas e subseqüentes, assistiu filmes sentado ao chão ou em pé (fato que já aconteceu em edições anteriores). Então está ai:

Sexta – feira – 05/10/07:

No Primeiro a intenção era ver o documentário Rockin’ Brooklin, mas os ingressos estavam esgotados. A opção era então a assistir ao filme brasileiro A Casa de Alice, primeira obra do documentarista Chico Ferreira. A película aborda o dilema e o dia a dia da manicure Alice que reside em São Paulo com três filhos, a mãe e o esposo. O roteiro nos transporta para esse ambiente que se aproxima tanto do real que agrada se pensado justamente como documentário, mas nem tanto como obra ficcional. Ficou devendo.

Sábado – 06/10/07

O dia mais movimentado do festival. Um calor infernal pairava sobre Belo Horizonte. Dia também de sessões disputadíssimas e simultâneas. A tarde começou com o ótimo e hilário filme do gênio multifacetário Serge Gainsbourg Paixão Selavagem que tem no elenco a ainda jovem e belíssima Jane Birkin e uma participação mais do que especial de Gerard Depardieu. Na seqüência fora a vez da surpreendente animação sci-fi noir Renaissance dirigida por Christian Volckman. O roteiro futurista gira em torno do ano de 2054 e é ambientado em Paris onde a vida é monitorada por câmeras de vigilância. A personagem Illona, importante cientista da companhia Avalon, fora seqüestrada. E cabe ao agente Barthelemy Karas resolver a questão. Num misto de Sin City (pelo tom de preto e branco graphic novel semelhante a obra de Frank Miller) e com temática semelhante ao mal resolvido Minority Report, o filme fora um dos melhores deste ano e deve entrar em cartaz em breve em cinemas belo horizontinos.
Chegava a noite e coração ficava partido: iria ver um filme do Truffaut (no caso o elogiado Amor em Fuga), enfrentar a interminável fila para INLAND EMPIRE (novo de David Lynch) ou encarar a obra de estréia de Tom Kalin, Savage Grace? Se existe uma máxima “na dúvida fique com a última opção” aqui ela se comprova e não fora em vão. Savage Grace é um grandioso e ousado filme que retrata a história real de Barbara Baekeland, interpretada brilhante por Juliane Moore sendo esta a sua melhor atuação de todos os tempos. A história gera em torno de seu casamento conturbado com o milionário Brooks Baekeland, uma polêmica relação incestuosa com o seu próprio filho, Antony, que é homossexual, e a decadência de sua família. Dotado de uma bela fotografia, uma direção primorosa e de cenas/diálogos fortes a obra é recomendável com louvor. Para quem perdeu, ele tem estréia marcada nos cinemas brasileiros no dia 15 de novembro.


Domingo – 07/10/07

Dia de filmes B. Leia-se: de baixo orçamento. O primeiro fora Quarto 314, de Michael Knowles. O roteiro da obra é simples e interessante: retrata a história de cinco casais vivendo momentos distintos do relacionamento e tendo como ambiente o quarto mencionado no título. Dotados de bons diálogos e de um elenco de atores amadores, mas condizentes com a obra, o filme carece de apenas um aspecto: a ausência de trilha sonora. Porém, isto não pesa tanto no resultado final. Grata surpresa.
Na seqüência foi a vez do documentário The Ballad of A.J. Weberman de James Bluemel e Olive Ralfe. O filme retrata a vida do lunático A.J. Weberman, um dos pioneiros da Dylanlogia, ou seja, estudo sobre as letras de Bob Dylan e da Garbologia que é o estudo sobre a vida do ser humano através do lixo que ele produz. A porção cômica da obra reside em dois aspectos: primeiro pelas hilárias conversas telefônicas de Weberman e Dylan no qual o primeiro persuadia o segundo em perguntas escatológicas, que beiravam o besteirol, e deixavam-no irritado. Segundo pelo modo de vida obsessivo do protagonista que se une aos “rebeldes” de Nova York para viver de forma irreverente já que ele e seus asseclas/admiradores vivem à margem do sonho americano. Hilário.

Quarta – feira – 10/10/07
Hora e vez do já citado Rockin' Brooklin, dirigido por Wojciech Bozyk, que observa a frutífera cena rock do local. Mais do que retrato romântico, o filme retrata as dificuldades de quem objetiva viver de música e traça paralelos com bandas que conseguiram alcançar o sonho de sair de seus domínios e alcançar vôos maiores como é o caso do soberbo TV On The Radio e o Radio 4. Boas e promissoras bandas são apresentadas ao vivo e provam que apesar de atual cena nova-iorquina estar em decadência (vide Strokes, Interpol etc.) no bairro vizinho as coisas vão bem obrigado.


Quinta – feira – 11/10/07

A despedida do festival. A escolha da vez fora o aguardado, pelo menos por mim, Delirious. A comédia de Tom DiCillo (diretor de Johnny Suede) apresenta o dia a dia do paparazzi Les Galantine que busca de forma insana a sua ascensão profissional. Les encontra o morador de rua que sonha em ser ator, Toby, e o adota como assistente. Ambos partem assim em busca desenfreada pelo sucesso. O desenrolar desta história é deveras delicioso, mas é importante ressaltar o fio condutor da obra que reside na interpretação magistral dos protagonistas (interpretados pelo brilhante Steve Buscemi, como Les, e Michael Pitt, como Toby) que rendem boas gargalhadas. Tal como participação de Elvis Costello que interpreta a si mesmo. De forma geral, DiCillo atinge seus objetivos que residiam não somente apresentar a superficialidade da vida das celebridades como também quão irônica ela pode ser. Perfeito.


E assim, termina mais edição do festival para sempre residirá no coração dos mineiros que, assim como eu, são apaixonados pela sétima arte e aguardam ansiosamente a próxima edição.

23 de setembro de 2007

Growing up in public*

Semanas atrás obtive umas das experiências que, provavelmente, terei de enfrentar por muitos anos de minha vida: a sala de aula. Porém, numa posição muito diferente que enfrento diariamente na faculdade, pois lá sou aluno e durante estágio sou professor. E o quão difícil é esta tarefa... Como se não bastasse o frio na barriga ocasionado por encarar pessoas completamente diferentes e desconhecidas existe outro fator maior: basicamente, ninguém liga para você. Numa turma de, por exemplo, quarenta alunos se cinco prestarem atenção no trabalho que você gastou horas formulando é pedir demais. Infelizmente, esta é a realidade do ensino de uma forma geral no qual professores não são mais essenciais e os alunos não se dedicam nem ao mínimo de prestar atenção em respeito à presença do professor.
Este quadro deprimente pode ser transposto para várias outras áreas como, por exemplo, o rap norte – americano. Se para cada Jay – Z (exemplo de aluno aplicado que hoje é professor) existe milhares de alunos indisciplinados (Ja Rule, P. Diddy, T.I., Eminen...) que crescem como vírus provando esta máxima.
Recentemente, o mercado mundial presenciou uma batalha de extremos desta sala de aula: um aluno da turma do “fundão” (50 Cent) lançou o desafiou ao “C.D.F” (Kanye West). O embate consistia em: ambos lançaram no mesmo dia (11 de setembro) seus mais novos trabalhos, 50 via Curtis e West com Graduation. O primeiro (brigão por excelência que se gaba de ter levado nove tiros e sobrevivido) afirmou que seria impossível West vender mais cópias que ele na primeira semana e disse sem pestanejar: caso isto aconteça eu desisto de gravar discos solo. West, do seu lado, ouviu tudo e deixou rolar.
Analisando ambos se vê uma enorme diferença. Curtis é, sem sobra de dúvida, um disco fraco. Se comparado aos álbuns anteriores (Get Rich or Die Tryin’ e The Massacre) não apresenta diferenças. Claro, há momentos dignos de nota como “AYO Technology” (com Justin Timberlake e Timbaland) e “Follow My Lead” (com Robin Thricke), mas não garantem a média e a aprovação fica para o ano que vem.
Graduation a história é outra. É perceptível e admirável nas primeiras audições o crescimento do aluno dedicado que Kanye West é. Cada vez mais distante dos “batidões” do gangsta (marca de 50 Cent, por exemplo) West aposta em melodias surpreendentes que dialogam com, por exemplo, com o electro do duo francês Daft Punk (na ótima “Stronger”), utiliza samples da velha guarda da música negra (a belíssima “I Wonder” tem como base “My Song” de Labi Siffre, poeta e compositor) ou deixa o piano conduzir a canção (“Everything I Am”). Como se bastasse, estabelece dialogo não somente com colegas de classe (o sempre aplicado Mos Def marca presença) como também em outras áreas via Chris Martin do Coldplay que aparece em “Homecoming”. E sem deixar de render homenagens a quem merece “Big Brother” está lá dedicada explicitamente ao mestre (o citado Jay – Z).
E o resultado final nesta verdadeira batalha de gigantes teve como vencedor, e de forma merecida, Kanye West que vendeu 957 mil cópias contra 691 mil do adversário.
Por fim, cito sabiás palavras proferidas por West, pois como afirma na abertura de Graduation em “Good Morning”: “people graduate but still stupid”. Sim, ele já alcançou a graduação, mesmo se registrando tardiamente (Late Registration, grande disco anterior a este) e ruma para a pós, mas almeja algo ainda melhor. Não se cansa de crescer. E digo não somente em público, mas também como pessoa já que anseia algo melhor não somente para si: busca melhorias também para o mundo (para quem não sabe West é ativista político e participou do Live Earth evento organizado por Al Gore).
E que fiquei a lição para 50 Cent e seus asseclas: seus dias de baderna estão contados. E se você quiser sair mesmo dessa vida Kanye pode lhe ajudar. Dias atrás ele ajudou ao Common a produzir um discão (Finding Forever) coisa que ele não fazia há tempos...

* Em referência ao álbum de Lou Reed lançado em 1980.

22 de setembro de 2007

Great Expectations*

“Pouca gente se lembra do Nirvana tocando no terceiro palco do Reading Festival”.

Não me lembro quem proferiu esta célebre frase citada acima (Nick Hornby? Tony Parsons? Simon Reynolds?... Hum... deixa para lá), mas a mesma fora bastante representativa. Digo isso porque enquanto meia dúzia de pessoas assistia ao grupo de Kurt Cobain e companhia em 1990, no ano seguinte o grupo lançaria Nevermind e graças a “Smells Like Teen Spirit” foram içados do palco três para o um a tamanha a projeção alcançada.
Trago isso para 2007 e vejo basicamente o mesmo acontecer já que, salvo as dividas proporções, a paulistana Céu traça trajetória semelhante.
A primeira apresentação da cantora em solo mineiro fora antológica tal como o grupo de Seattle que debutava na Inglaterra, mas poucos estavam contemplando-a. Digamos que uma média de 10% do público presente estava lá para vê-la, pois o restante estavam na Estação do Conde para ver o celebrado Funk Como Le Gusta ou curtir a noite de sexta-feira. E fora completamente visível este fato durante o show já que a turma do gargarejo fazia bonito entoando todas as canções em uníssono, admirando cada nuance de Céu que dançava timidamente sobre o palco durante as canções, cativava pela graciosidade e, claro, sua rara beleza natural que não necessita de “adereços” para ser exibida. É como Lucio Maia, da Nação Zumbi, disse certa vez: “Céu poderia ficar pagando de Beyoncé, mas não o faz”.
Sobre o desempenho da cantora posso dizer que a sua voz fora uma grande surpresa. Se em disco (o auto-intitulado Céu de 2005) ela já soava maravilhosa ao – vivo se faz ainda mais já que o ar levemente pasteurizado das gravações via estúdio dão lugar a simplicidade e a segurança de uma Billie Holliday.
O repertório, executado nos mínimos detalhes, há de se louvar e congratular a banda de apoio que atuou de forma impecável.
A sonoridade de Céu gira em torno de tantos gêneros que fica difícil classificá-la. Suas canções apresentam desde características urbanas (o rap, por exemplo) a raízes africanas (sua grande paixão confessa) como o reggae, o dub, o jazz... E tudo isso está tão bem diluído e palatável que impressiona aos ouvidos.
Por fim, afirmo, com absoluta certeza, que pouca gente irá se lembrar da apresentação de Céu no dia 21 de setembro de 2007 em Belo Horizonte. Porém, as chances da cantora ser a próxima next big thing são grandes. Se 2007 fora, de forma merecida, o ano de consolidação de Vanessa da Mata, 2008 tem tudo para ser o ano de Céu que vem conquistando aos poucos seu público e somado a crítica que segue vangloriando seu trabalho a faz a grande esperança do cenário nacional. E que venha seu segundo álbum para sacramentar!
* Em referência a clássica obra da literatura realista de Charles Dickens

9 de setembro de 2007

A Pain That I'm Used to*


Você acredita que música pode salver vidas? Caso afirmativa a resposta você já fora salvo alguma vez? Pois eu digo sem pestanejar que fui por várias vezes. Mas nada de suícidio aqui. Quando falo em ser salvo faço menção a reviravoltas na vida. Ao famoso termo "dar a volta por cima" para seguir em frente. Como exemplo, posso citar o fato de Summerteeth do Wilco (que nada mais é que um verdadeiro manual de como superar as dores pós - relaciomaneto findado) ter me dado bastante força anos atrás.
Sei que encontrar respostas em canções é um misto de Rob Fleming sindrome como também uma certa dose de infantilidade, mas este sou eu. O que posso fazer?
Mas se para cada Summerteeth existe seu réves então está aí West novo álbum da maravilhosa cantora e musa country Lucinda Willians.
Diferente dos álbuns anteriores o disco tem como essência a tristeza latente. E para tanto, essa novidade assusta na primeira audição a velhos fãs como eu habituados a sua voz rasgante, precisa e potente. A energia de antes agora ganha placidez. E não falo somente da voz: as guitarras de outrora que antes emulavam a sua porção Stones (via Keith Richards) dão lugar a sonoridades sutis e violões muito bem encaixados, docemente melodiosos.
Os títulos das canções também são um viés para compreender o novo universo adentrado por Willians: "Learning How To Live", "Fancy Funeral", "Rescue", "Where Is My Love?" e "Everything Has Changed" são alguns exemplos.
Há quem pense que o fato de ouvir constantemente canções tristes a tornam uma pessoa como tal. Porém, não enxergo nessa ótica. Há momentos que se faz necessário "curtir" um pouco da tristeza. Tal como nas cenas finais de Elizabethtown, dirigido por Cameron Crowe, onde Clare (personagem de Kirsten Dunst) diz a Drew Baylor (personagem interpretado por Orlando Bloom): "curta a tristeza intensamente por cinco minutos e depois esqueça - a". West, eu sei, não tem cinco minutos de duração (na verdade são 68), mas este é um dos raros casos que, como diria o falecido Jeff Buckley, a tristeza ganha contornos brilhantes. E Lucinda o faz muito bem. E a vida segue...
* Canção emblemática do Depeche Mode

1 de setembro de 2007

Heroes of the day: “Extreme Ways”* of Jason Bourne & Paul Greengrass


Dias atrás estávamos eu e meu grande amigo cinéfilo Luiz discutindo, filme a filme, a recente lista publicada pela Bravo! no qual estão dispostos os 100 filmes essenciais segundo a publicação. Aliás, exercício este muito interessante e delicioso. Mas não quero aqui colocá-la em pauta e sim realizar um pequeno questionamento: o porquê a ausência das obras de novos diretores?
Tocar em terreno sagrado é muito válido, principalmente para a nova geração de admiradores do cinema, mas também um pouco “fácil” já que não há muito a se discutir quando se fala de Orson Welles, Stanley Kubrick, Coppola, Fellini, Woody Allen etc. São diretores geniais que abriram portas e mentes, influenciando muita gente. Isto é fato e ponto. Se pensarmos na lista citada ao que parece o cinema parou nos anos 70. Porém, de lá para cá muita coisa aconteceu. Será que trabalho da nova geração de diretores como Michel Gondry, Spike Jonze, Fernando Meirelles (único novato na citada lista), François Ozon, Christopher Nolan, Richard Linklater entre tantos outros não são válidos? Dignos de nota? E de fato “uma verdade irritante” (tal como no filme Os Simpsons, em ironia ao documentário Uma verdade Inconveniente).
E dentre os novos diretores decreto hoje o mais novo membro da “academia”: o britânico Paul Greengrass. Sua carreira ainda engatinha eu sei, mas a “passos largos”. E muito me impressiona a maneira que conduz seus filmes: a câmera segue de maneira tensa seguindo cada nuance nos momentos exatos. Seus planos se alternam entre abertos e fechados sem perder a essência. Captura de forma primorosa cada um dos detalhes presentes na fotografia. Retira dos atores de seus atores interpretações no mínimo elogiáveis. E não se trata de um diretor especializado em dramas ou qualquer outro gênero ligado ao mesmo. Sua especialidade são as películas de ação.
Quando Vôo United 93, seu “segundo” filme (seguindo o ponto de vista mercadológico) estreou muita atenção fora dada ao fato de abordar um fato no mínimo perigoso, a ferida dos americanos: 11 de setembro que aqui no caso faz menção ao vôo que não alcançou seus reais objetivos ocasionando, após a queda, a morte de todos os tripulantes e terroristas a bordo. Mas, polêmicas a parte, o filme é realmente impressionante. E digo isso não somente pela carga de realismo apresentada em cenas angustiantes. Assisti-lo é algo que realmente incomoda. Lembro-me até hoje das dores de cabeça geradas ante sua exibição no cinema tamanha a confusão e caos apresentados nas cenas. Tal como nos diálogos da sala de comando do aeroporto que são recheadas de terminologias estranhas aos meus ouvidos e isto me fascinou grandiosamente tal e qual aconteceu ao assistir Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, filme que, aliás, me deu muita dor de cabeça também. Entretanto, ambos os casos são dores de cabeça do bem.
E sua trilogia sobre o personagem de Robert Ludlum, o agente Jason Bourne, também não fica para trás. E falando nela me renderei agora a seu último capítulo: o soberbo Ultimato Bourne.
Na história Jason segue sua busca incessante de sua identidade. Para tanto abandona seu esconderijo e ruma ao redor do globo para findar a missão de um homem só. Agora, o agente encontra no jornalista Simon Ross do The Guardian (publicação inglesa), que acompanha toda a história inescrupulosa da organização secreta Treadstone (renomeada Blackbriar) da qual o próprio Jason fazia parte, a fonte necessária do resgate de sua origem. Porém, o encontro com o mesmo não fora dos mais felizes gerando a morte do repórter e mais uma nova caçada ao agente.
Eletrizante tal como os dois anteriores, em Ultimato Greengrass usufrui bem os milhões de dólares (R$ 125 mi.) utilizados para a realização do filme. E em grande estilo. As locações na Europa e África foram realmente muito bem utilizadas, tamanha a beleza da fotografia e as ótimas tomadas aéreas introduzidas a cada cidade que Bourne passava.
No campo das atuações Matt Damon segue magistral no papel do agente. Julia Stiles cede, mais uma vez, seu brilhantismo a personagem Nick Parsons. Joan Allen volta interpretando bem a personagem Pam Landy. O sempre marcante David Strathairn é Noah Vosen, agente do governo implacável quando o assunto é a morte de Jason Bourne. Da série “coadjuvantes de luxo”, estão lá Daniel Brühl (de Edukators e Adeus Lênin) em cena curta, mas importante na trama, e Albert Finney que em míseros 20 minutos de cena na reta final do filme expõe toda sua grandiosidade como ator (fato que quem já viu Peixe Grande sabe do que estou falando).
Em suma, para finalizar, faço das palavras proferidas por Gregory Kirschiling, crítico do Entertainment Weekly.com, as minhas: “para Greengrass, esses filmes se destacam porque Bourne é um homem real, num mundo real. E ele sustenta uma busca tão mítica e arcaica quanto uma tragédia grega, sua própria identidade”.
Esses e outros fatores fazem de Jason Bourne o agente da vez (já que a série James Bond aparenta entrar nos trilhos, mas aguardaremos ansiosamente por Agente 22 para definir) e de Paul Greengrass um dos melhores diretores da nova safra.

* A ótima “Extreme Ways” do Moby é o tema musical da trilogia de Jason Bourne.

12 de agosto de 2007

Enquanto isso no Brasil...

Este ano estou no paredão. Encurralado. Tudo por um simples motivo: a surpreendente guinada na cena musical brasileira.
Durante anos de dedicação a música pop poucos foram os disco do ala nacional que adentravam a minha tradicional lista dos cinco melhores álbuns do ano. Quando me prestava a pensar nesta categoria (separando os nacionais dos internacionais) o número de participantes era, por vezes, inferior ao total. Então às vezes nem me prestava à sua realização. Não que a música brasileira esteja em estado de putrefação. Muito pelo contrário. A diferença se dá pelo acesso a mesma. Incrivelmente, muitos discos da cena estrangeira chegam as minhas mãos com muito maior facilidade do que os daqui. A nossa distribuição é deveras inferior comparada aos gringos. Mas hoje em dia as coisas têm melhorado graças ao belo trabalho realizado por selos independentes como a Tratore, a Deckdisk e a revista Outra Coisa que aumentaram, consideravelmente, o alcance e a projeção da música produzida aqui. Mas ainda há muito a fazer. Porém, isto é assunto para uma outra ocasião. O que quero aqui é expor minha total surpresa com o nosso cenário musical. Um grande volume de discos de qualidade está sendo produzido este ano! E melhor ainda: oriundos, em sua maioria, da cena independente. Aliás, quem tinha dúvida de que a independência era um caminho perigoso tem bons motivos para mudar de idéia. O fato de artistas, das mais variadas vertentes, como o Pato Fu e Erasmo Carlos estarem fazendo parte do cast da Tratore e da Indie (outro selo independente), respectivamente, são bons exemplos de que este é um grande viés em tempos de crise no mainstream.
A título de exposição, seguem abaixo curtas resenhas sobre alguns discos que devem figurar na sua estante, HD e, claro, nas famosas listinhas de fim de ano:

Erasmo Carlos – Convida: Volume II: O segundo volume da série Convida é uma brasa amora! As releituras aqui realizadas das canções da dupla Erasmo/Roberto (a quem o disco é dedicado) são deliciosas. Difícil é pontuar qual é a melhor. Num disco que se tem Chico Buarque cantando “Olha”, Marisa Monte, estilosa com seu ukelele, na sublime “Tema de não quero ver você triste”, o Skank injetando força em “Bandas dos Contentes”, o Los Hermanos na dramática “Sábado morto” entre tantas outras é um martírio. Duro é o Zeca Pagodinho em “Cama e Mesa”. Mas o resultado final é muito bom. E o melhor de tudo: contando com o aval e os vocais do tremendão.
Ouça: “Ilegal, Imoral ou engorda” com Adriana Calcanhoto.

Canastra – Chega de falsas promessas: Depois da briga e a rescisão contratual com a Sony os cariocas do Canastra se cansaram de “falsas promessas” e voltaram à independência com o disco mais dançante do ano. De “Chevete Vermelho” até “Dallas” o grupo executa canções no qual é impossível ficar parado num caldeirão que mistura rock, jazz, ska e que mais for possível sem patinar em nenhum momento. Pura diversão. Disco curinga para festas chatas.
Ouça: “Miss Simpatia”

Autoramas – Teletransporte: A melhor banda de rock do Brasil em termo de apresentações (que sempre são enérgicas) volta com seu mais novo rebento. Teletransporte é um disco coeso e forte em canções que seguem a linha tradicional do grupo ao misturar surf music, jovem guarda e new wave em linguagem pop. A surpresa é balada “300 km/h”, homenagem indireta ao Rei Roberto de quem Gabriel Thomaz (o frontman do grupo) é grande fã.
Ouça: “Eu mereço”

Orquestra Imperial – Carnaval só ano que vem: Quem já assistiu a apresentação do combo composto pela nata da cena musical carioca sabe o quão infernal é. O Ep lançado antes do álbum dava impressão que o álbum cheio seguiria o mesmo rumo. Mas... aqui a história é outra. Com freio de mão puxado, o disco vai muito mais para o lado “dançar coladinho” do que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Daí o título. Independente disto, o disco é um grande achado. Muito bem produzido pelos grandes Mario Caldato e Kassin, o repertório faz justa homenagem ao samba de Cartola e afins que comandavam a época dourada do verdadeiro samba. A única que destoa desta temática é a tropicalista “Supermercado do amor” cantada pela musa Nina Becker e o gênio Jorge Mautner.
Ouça: “Ereção”

Cachorro Grande – Todos os tempos: Maturidade. De forma árdua, mas consistente. Digo isso porque pessoas como eu que adoravam a porção “rock n’ roll never die” (leia – se Rolling Stones, Small Faces...) dos gaúchos se assustam na primeira audição tamanha a diferença. Focado muito mais no folk e no rock inglês dos anos 90, o disco vai crescendo a cada audição graças a melodias muito bem construídas oscilando entre psicodelismo beatle e a lisergia do Stone Roses. Para os velhos fãs está lá a já clássica “Deixa Fudê”, enérgica como si só.
Ouça: “Quando amanhecer” co–irmã da clássica “Haverst Moon” de Neil Young

E não para por aí! Brevemente textos sobre a revolução criada por Vanessa da Mata, o novo do Pato Fu, o funk curitibano tipo exportação do Bonde do Rolê...