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6 de fevereiro de 2008

You've got to be strong, if you want to survive


"Por que a canção de Bobby Womack, 'Across 110th Street', está presente em quase todos os filmes de gangsters?". Esta pergunta ecoou em minha cabeça por dias. Quentin Tarantino, por exemplo, a utiliza em Jackie Brown. Ridley Scott também a utiliza no recente American Gangster...
Seria devido à melodia funk? Ou seria pelo simples fato dela ser ótima mesmo? A dúvida perdurou por um bom tempo até o dia em que prestei atenção a letra e encontrei a.possível resposta: lá está a frase emblemática de qualquer "malandro" que almeje enfrentar os desafios da vida do ghetto adota para si: You've got to be strong, if you want to survive (você tem de ser forte, se você almeja sobreviver).
Tempos atrás, essa máxima somente poderia ser adota por esse seleto grupo que vivia à margem da sociedade e encarava o cotiano violento no front, buscando meios para a sua sobrevivência nos subúrbios. Mas isso foi há tempos atrás... Hoje ela vale também para todos nós que dia após dia vivemos num mundo cada vez mais sujo e dominado por personagens que antes só ouvíamos falar, visualizávamos nas telas da TV/cinema ou em livros de Elmore Leonard.
A violência tomou dimensões tão grandiosas e desenfreadas no século XX (o pior dos séculos para muitos) que mal avançamos para o de número XXI e o que se vê nos jornais não é um recrudescimento de mortes causadas por atos violentos de qualquer tipo e sim um acréscimo elevado no contingente.
Bom, ai você viu logo acima o pôster de Onde os Fracos não tem Vez (No Country For Old Men no original), novo filme dos irmãos Coen, e se pergunta: em que hora esse imbecil vai falar do filme? Se for isso que você quer caro leitor ai vai: o filme é sem sombra de dúvida o melhor dos Coen desde sempre. O roteiro baseado na obra de Cormarc McCarthy está fidedigno à obra. Javier Bardem está soberbo em atuação digna de Oscar no papel do louco assassino Anton Chigurh. Mas isso você já sabe, leu por ai e é o de menos.
A intenção da película é chocar o espectador. E não com as cenas sanguinárias que permeiam toda a obra. Afinal de contas Onde os Fracos não tem Vez é real e está em todo lugar. Está em frente a sua janela. Está enquanto você perde o seu tempo lendo este texto. E nós estamos estarrecidos, pois, aparentemente, não há nada a fazer.
Nessas horas vêm a consciência as palavras de Lennon: "How do you sleep?". Eu confesso que meu caro amigo que não sei como.

20 de janeiro de 2008

The day after the revolution*

"You say you want a revolution
Well you know
We all want to change the world"

Beatles em "Revolution"

A vida inteira buscamos por realizações. Buscamos revoluções em nossas vidas, mudar o mundo ao nosso redor. Mas o que vem depois de conquistarmos nossos sonhos? Esse é o mote conflituoso de Amantes Constantes de Philippe Garrel.
O filme, que funciona, de forma indireta, como continuação ao soberbo Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci, volta à mesma França de 1968 aonde a revolução estudantil eclode de forma violenta. A juventude tomou às ruas adotando a ideologia da "liberdade individual para todos". E não obstante é datado também nesse período o início da revolução sexual que iria culminar no verão de 1969. Todos esses fatos históricos são filtrados pela ótica de Garrel que imprimi de forma primorosa a visão de quem somente vivenciou tudo com seus próprios olhos poderia fazê-lo.
Acima comentei sobre a ponte entre Os Sonhadores e Amantes Constantes e a mesma acontece justamente por duas razões: primeiramente pelo início já que a película de Garrel começa aonde Bertolucci termina, no conflito armado entre a polícia armada e os estudantes. Segundo, pela presença de Louis Garrel, filho do diretor, que atua também no filme do diretor italiano.
Filmado totalmente em preto e branco, utilizando de técnicas oriundas da década de 60 (seja através de closes focando o rosto e as expressões dos personagens e/ou o silêncio como forma de demonstrar a angústia daqueles tempos), o diretor trás nas suas três horas de duração um filme grandioso que os acostumados aos padrões hollywoodianos de hoje nunca irão se acostumar.
Obrigatório para fãs e apaixonados pela sétima arte que permanece viva na obra de alguns diretores e Philippe Garrel é um deles.

* Dupla referência. Primeira: título de uma canção do extinto Pulp, do carismático Jarvis Cocker, que versa sobre a mesma temática do filme. Segunda: antítese ao filme de Bernardo Bertolucci Antes da Revolução. Durante uma passagem do filme a personagem Clotilde Hesme indaga ao primo de Antoine (Nicolas Bridet), um pintor, se já assistiu “Antes da Revolução”, vira-se para a tela e solta num suspiro soturno: “Bernardo... Bertolucci”.

6 de janeiro de 2008

I was there!*

Marina da Glória/RJ: 26 de outubro de 2007 - Tim Festival



Eu estava lá! Eu a vi. Renovada, elétrica e extremamente feliz. Em sua melhor fase. Eu a vi como a muito tempo não acreditava vê-la. Me emocinei a cada segundo de sua presença. Por ela qualquer esforço parece em vão. Cat Power. É por ela que meu coração "musical" bate no momento. E não poderia dizer nada mais do que estas parcas linhas do que fora o show dela para mim. Um dos pontos altos de minha vida concretizada em forma de sonho/realidade em três dias de puro êxtase carioca? Com certeza sim.
E para coroar/selar a nossa renovada paixão chegará as lojas no dia 22 de janeiro seu mais novo trabalho: Jukebox álbum onde, mais uma vez, revisita clássicos e obscuridades de artistas de sua predileção como também recria canções do seu próprio repertório.
Como de praxe, o disco já está por ai na web para quem quiser ouvir. E como diz a o título da canção de Bob Dylan: "Tomorrow Is A Long Time". Então o download já fora efetuado a título de necessidade mor.
Considerações: mais um vez, como desde Covers Record , Chan Marshall acerta em cheio graças a seleção grandes canções que graças a sua plácida voz, sua interpretação diferenciada das versões originais e uma exímia banda de apoio (o Dirty Delta Blues colabora novamente tal como no grandioso The Greatest) se destacam de forma primorosa.
O hino clássico/clichê à cidade de New York ("New York, New York", claro, famoso na voz de Frank Sinatra e Liza Minelli) é recriado de forma inimaginável: vigoroso e cadenciado, acrescetando assim, uma nova e esplendorasa visão/interpretação da canção.
A canção country de Hank Willians "Ramblin' (Wo)man" torna-se um blues do primeiro escalão.
"Lost Someone", de James Brown, vira uma delicosa e pulsante valsa tal como a maravilhosa versão de "I Found the Reason" do Velvet Underground cometida por ela no já citado Covers Record.
Bob Dylan está lá de forma dupla: na elétrica versão de "I Belive in You" e na singela/comovente homenagem ao mestre em "Song To Bobby" única canção própria inédita no álbum.
Por fim, destaca-se a trinca final dedicada a cantoras: a versão de "Don't Explain" de Billie Holiday (apresentada em primeira mão nos shows do Brasil), "A Woman Left Lonely" famosa na voz de Janis Joplin e a belíssima "Blue" de Joni Micthell.
Eu estava lá e estarei quantas vezes me for necessário, pois ao contrário de Feist que me "deixou na mão" ao não comparecer ao nosso "encontro" no Tim Festival, Cat Power apagou qualquer ausência sentida e continua a arrebatar corações seja no palco ou em discos como o maravilhoso Jukebox que já desponta como um dos melhores de 2008.
*Qualquer antítese traçada com I'm Not There, filme de Todd Haynes, que tem em sua trilha sonora a própria Cat Power está no caminho certo. Agora, se você se lembrou da frase emblemática de "Losing My Edge" do LCD Soundsystem também está.

4 de janeiro de 2008

That 70's show*

Os anos 70 foram a glória para muitos. Fora a época que nem almejava em nascer, mas gostaria. Foi um período mágico por infinitas razões. E, musicalmente falando, década das mais propícias para a produção de grandes álbuns.
A beatlemania havia estagnado com fim da banda de Liverpool. Então o mundo respirava ares mais amplos enxergando e dando espaço para muita gente boa. E como era dificil não gostar dele nesse tempo... A fatídica era foi a fase mais promissora de sua carreira.
Afirmar que não gostava de Rod na época seria o mesmo que achava Pelé um jogador mediano fato que, como todos sabemos, é inconcebível.
Foram tantos álbuns e canções históricas que fica dificil destacar apenas um(a), mas por hora fico com o meu predileto do momento, que também figura na lista do Rolling Stone de 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos, tem a predileção de Cameron Crowe e também dos caras do Manic Street Preachers: Every Picture Tells A Story.
Lançado em 1971, o disco catapultou a carreira até então sub-oscura de Rod que estava recém saído do seminual Faces e do Jeff Beck Group. Estão neste álbum vários de seus clássicos presentes até hoje no repertório como "Maggie May", "That's All Right (Mamma)" (famosa também na voz de Elvis Presley) e a faixa título.
Dono de uma das melhores vozes do período e performances eletrizantes Rod Stewart tinha o cetro em mãos e seguiu a década conquistando público e crítica, mas não o manteve por muito tempo. A década de 80 veio, os excessos de quem levou uma vida Rock & Roll ao extremo também, e, consequentemente, a veia criativa afrouxou em prol do que eu chamaria de Roberto Carlos Sindrome , pois uma interminável fase baladeira vingou e não tardou mais.
O cantor versátil e ousado de outrora agora aposta no caminho "fácil" de gravar standars de jazz para agradar em cheio o público norte - americano e o mercado agradece mais um volume da série American Songbook que chega a seu quarto. Um pena. A meu ver desperdício de talento de um dos maiores perfomers que o rock já viu e influenciou tanta gente boa como a "tia" Rita Lee confessou recentemente em entrevista a Rolling Stone.
Saudades do tempo em não vivi nem viverei. Nostalgia pura ocasionda por textos de Lester Bangs, para muitos o maior crítico musical de todos os tempos que retratou como poucos e efervecência dos anos dourados do rock.
Enquanto isso Almost Famous volta para a prateleira de filmes a serem vistos essa semana.
Detalhe: a trilha do filme de Cameron Crowe tem, como de praxe, vários atrativos. Entre eles a faixa "Every Picture Tells A Story" que fora minha primeira incursão ao universo de Rod Stewart.
*Série televisiva recente que revelou o talento de atores como Topher Grace e Ashton Kutcher.

11 de novembro de 2007

REQUIEM POUR UNE ARTIST

Pela primeira vez em quase três anos deste espaço publico algo que não seja de minha autoria. E, para começar bem, tenho a honra de postar as considerações de Juan Fiorini (poeta, escritor, agitador cultural e, nas horas vagas, meu grande amigo) sobre o obra prima de Silvie Simmons, Um punhado de Gitanes, que esmiuça a vida e a obra do gênio Serge Gainsbourg.



“Il y a une trilogie dans ma vie. Un triangle, dirons-nous, équilateral que est la fummé enfin, les Gitanes – l’èthylisme, et la fille. Je n’ai pás dit isocèle, j’ai dit équilateral. Mais tout ça avec um background me mec initié à la beauté, à la peinture.”*

Em Um punhado de Gitanes – Serge Gainsbourg, Sylvie Simmons, jornalista de rock renomada procura definir e falar um pouco sobre Serge Gainsbourg, o mito e ícone pop francês, um artista tão versátil quanto polêmico.
Compositor, escritor, diretor / roteirista de cinema, cantor, fotógrafo, intelectual, artista plástico, ator, bêbado, provocador, amante e fumante exacerbado de cigarros Gitanes (cinco maços por dia!!!), este misto de Bukowski com Barry White apresentou a elegante e ímpar chanson française ao mundo pop, namorou beldades (Brigitte Bardot e Jane Birkin, só para citar as mais conhecidas), criou o pop francês – até então a música francesa era motivo de chacota pelo resto da Europa, principalmente entre os ingleses, numa época em que os Beatles e os Rolling Stones eram referências mundiais – e foi o autor / cantor do talvez maior hino musical kitsch e sexy do planeta: “Je T’aime, moi non plus”, uma verdadeira “Stairway to Heaven” das camas redondas.
Dona de uma maneira deliciosamente descolada de escrever, que permite uma leitura objetiva e com poder de entretenimento excelente, Sylvie aborda desde o nascimento de Serge (cujo nome verdadeiro era Lucien Ginsburg, filho de judeus russos), sua juventude, suas primeiras aparições no mundo artístico – iniciando nas artes plásticas e logo após nos pianos dos clubes parisienses –, sua crescente fama, suas manias, suas crises, até a degeneração, encarada com uma classe que só um francês sabe como, bien sûr. O livro também aproveita para expor fatos como suas parcerias musicais com verdadeiras divas chansonniers como Juliette Greco e Françoise Hardy, seus sucessos e insucessos, fatos pitorescos advindos da excentricidade do artista, renomado ainda que tardiamente (o sucesso só viria a brilhar para ele em 1969, embora seu primeiro álbum tenha sido lançado em 1958).
E tudo não pára por aí: no final do livro há também um apêndice com várias citações do enfant térrible, uma discografia pra lá de completa, uma relação de todos os trabalhos feitos para a televisão e cinema e sugestões de referências (ótimas) para gainsbourgólogo nenhum se queixar.
Serge morreu em 1991. Mas para muitos não morreu. Uma inscrição na parede da casa número 5 da Rue de Verneuil, no bairro de Saint Germain, em Paris, diz que “Serge não morreu. Ele está no céu, trepando”. A única e melhor conclusão é a de que este livro é um passeio delicioso pela vida de um dos raros homens que soube talhar a grife da polêmica de maneira fatalista-niilista, um homem que sabia que “la mort est toujour présent, si on n’est pas con”(“A morte está sempre presente, se não formos bobos”), mas que estava igualmente convencido de que por algum motivo isso não aconteceria com ele. Un suicide optimiste, enfin.

*“Há uma trilogia na minha vida, um triângulo eqüilateral, por assim dizer, de Gitanes, alcoolismo e mulheres. Repare que eu não disse isósceles, disse eqüilátero. Mas tudo isso é fruto da formação de um homem que foi iniciado na beleza através de arte.”

Por Juan Fiorini

4 de novembro de 2007

Diary of a madman: Indie 2007

Fotos: Divulgação



Aconteceu entre os dias 05 e 11 de outubro a sétima edição da mais tradicional Mostra Mundial de Cinema de Belo Horizonte: o Indie.
Não tão diversificada quanto às de São Paulo e Rio de Janeiro, mas tão importante quanto, a versão 2007 fora de longe uma das melhores dos últimos anos graças a uma programação que agradou a “gregos e troianos” e a exímia organização.
Foram 129 filmes de 23 países exibidos nas salas do Usina Cine Clube e no Espaço Humebrto Mauro e subdivididos em várias categorias que iam desde pré-estréias (a Mostra Mundial), documentários musicais (Música do Underground), a sessão “nostalgia” dedicada a diretores clássicos (Indie Retrô), o atual cinema nacional (Indie Brasil) entre outras.
Segue abaixo a relação de alguns filmes, relatados tal como um diário de bordo, que este que vos escreve assistiu e recomenda como também algumas pequenas considerações sobre o dia a dia de quem, na medida do possível, acompanhou a correria/loucura de sessões disputadas e subseqüentes, assistiu filmes sentado ao chão ou em pé (fato que já aconteceu em edições anteriores). Então está ai:

Sexta – feira – 05/10/07:

No Primeiro a intenção era ver o documentário Rockin’ Brooklin, mas os ingressos estavam esgotados. A opção era então a assistir ao filme brasileiro A Casa de Alice, primeira obra do documentarista Chico Ferreira. A película aborda o dilema e o dia a dia da manicure Alice que reside em São Paulo com três filhos, a mãe e o esposo. O roteiro nos transporta para esse ambiente que se aproxima tanto do real que agrada se pensado justamente como documentário, mas nem tanto como obra ficcional. Ficou devendo.

Sábado – 06/10/07

O dia mais movimentado do festival. Um calor infernal pairava sobre Belo Horizonte. Dia também de sessões disputadíssimas e simultâneas. A tarde começou com o ótimo e hilário filme do gênio multifacetário Serge Gainsbourg Paixão Selavagem que tem no elenco a ainda jovem e belíssima Jane Birkin e uma participação mais do que especial de Gerard Depardieu. Na seqüência fora a vez da surpreendente animação sci-fi noir Renaissance dirigida por Christian Volckman. O roteiro futurista gira em torno do ano de 2054 e é ambientado em Paris onde a vida é monitorada por câmeras de vigilância. A personagem Illona, importante cientista da companhia Avalon, fora seqüestrada. E cabe ao agente Barthelemy Karas resolver a questão. Num misto de Sin City (pelo tom de preto e branco graphic novel semelhante a obra de Frank Miller) e com temática semelhante ao mal resolvido Minority Report, o filme fora um dos melhores deste ano e deve entrar em cartaz em breve em cinemas belo horizontinos.
Chegava a noite e coração ficava partido: iria ver um filme do Truffaut (no caso o elogiado Amor em Fuga), enfrentar a interminável fila para INLAND EMPIRE (novo de David Lynch) ou encarar a obra de estréia de Tom Kalin, Savage Grace? Se existe uma máxima “na dúvida fique com a última opção” aqui ela se comprova e não fora em vão. Savage Grace é um grandioso e ousado filme que retrata a história real de Barbara Baekeland, interpretada brilhante por Juliane Moore sendo esta a sua melhor atuação de todos os tempos. A história gera em torno de seu casamento conturbado com o milionário Brooks Baekeland, uma polêmica relação incestuosa com o seu próprio filho, Antony, que é homossexual, e a decadência de sua família. Dotado de uma bela fotografia, uma direção primorosa e de cenas/diálogos fortes a obra é recomendável com louvor. Para quem perdeu, ele tem estréia marcada nos cinemas brasileiros no dia 15 de novembro.


Domingo – 07/10/07

Dia de filmes B. Leia-se: de baixo orçamento. O primeiro fora Quarto 314, de Michael Knowles. O roteiro da obra é simples e interessante: retrata a história de cinco casais vivendo momentos distintos do relacionamento e tendo como ambiente o quarto mencionado no título. Dotados de bons diálogos e de um elenco de atores amadores, mas condizentes com a obra, o filme carece de apenas um aspecto: a ausência de trilha sonora. Porém, isto não pesa tanto no resultado final. Grata surpresa.
Na seqüência foi a vez do documentário The Ballad of A.J. Weberman de James Bluemel e Olive Ralfe. O filme retrata a vida do lunático A.J. Weberman, um dos pioneiros da Dylanlogia, ou seja, estudo sobre as letras de Bob Dylan e da Garbologia que é o estudo sobre a vida do ser humano através do lixo que ele produz. A porção cômica da obra reside em dois aspectos: primeiro pelas hilárias conversas telefônicas de Weberman e Dylan no qual o primeiro persuadia o segundo em perguntas escatológicas, que beiravam o besteirol, e deixavam-no irritado. Segundo pelo modo de vida obsessivo do protagonista que se une aos “rebeldes” de Nova York para viver de forma irreverente já que ele e seus asseclas/admiradores vivem à margem do sonho americano. Hilário.

Quarta – feira – 10/10/07
Hora e vez do já citado Rockin' Brooklin, dirigido por Wojciech Bozyk, que observa a frutífera cena rock do local. Mais do que retrato romântico, o filme retrata as dificuldades de quem objetiva viver de música e traça paralelos com bandas que conseguiram alcançar o sonho de sair de seus domínios e alcançar vôos maiores como é o caso do soberbo TV On The Radio e o Radio 4. Boas e promissoras bandas são apresentadas ao vivo e provam que apesar de atual cena nova-iorquina estar em decadência (vide Strokes, Interpol etc.) no bairro vizinho as coisas vão bem obrigado.


Quinta – feira – 11/10/07

A despedida do festival. A escolha da vez fora o aguardado, pelo menos por mim, Delirious. A comédia de Tom DiCillo (diretor de Johnny Suede) apresenta o dia a dia do paparazzi Les Galantine que busca de forma insana a sua ascensão profissional. Les encontra o morador de rua que sonha em ser ator, Toby, e o adota como assistente. Ambos partem assim em busca desenfreada pelo sucesso. O desenrolar desta história é deveras delicioso, mas é importante ressaltar o fio condutor da obra que reside na interpretação magistral dos protagonistas (interpretados pelo brilhante Steve Buscemi, como Les, e Michael Pitt, como Toby) que rendem boas gargalhadas. Tal como participação de Elvis Costello que interpreta a si mesmo. De forma geral, DiCillo atinge seus objetivos que residiam não somente apresentar a superficialidade da vida das celebridades como também quão irônica ela pode ser. Perfeito.


E assim, termina mais edição do festival para sempre residirá no coração dos mineiros que, assim como eu, são apaixonados pela sétima arte e aguardam ansiosamente a próxima edição.

23 de setembro de 2007

Growing up in public*

Semanas atrás obtive umas das experiências que, provavelmente, terei de enfrentar por muitos anos de minha vida: a sala de aula. Porém, numa posição muito diferente que enfrento diariamente na faculdade, pois lá sou aluno e durante estágio sou professor. E o quão difícil é esta tarefa... Como se não bastasse o frio na barriga ocasionado por encarar pessoas completamente diferentes e desconhecidas existe outro fator maior: basicamente, ninguém liga para você. Numa turma de, por exemplo, quarenta alunos se cinco prestarem atenção no trabalho que você gastou horas formulando é pedir demais. Infelizmente, esta é a realidade do ensino de uma forma geral no qual professores não são mais essenciais e os alunos não se dedicam nem ao mínimo de prestar atenção em respeito à presença do professor.
Este quadro deprimente pode ser transposto para várias outras áreas como, por exemplo, o rap norte – americano. Se para cada Jay – Z (exemplo de aluno aplicado que hoje é professor) existe milhares de alunos indisciplinados (Ja Rule, P. Diddy, T.I., Eminen...) que crescem como vírus provando esta máxima.
Recentemente, o mercado mundial presenciou uma batalha de extremos desta sala de aula: um aluno da turma do “fundão” (50 Cent) lançou o desafiou ao “C.D.F” (Kanye West). O embate consistia em: ambos lançaram no mesmo dia (11 de setembro) seus mais novos trabalhos, 50 via Curtis e West com Graduation. O primeiro (brigão por excelência que se gaba de ter levado nove tiros e sobrevivido) afirmou que seria impossível West vender mais cópias que ele na primeira semana e disse sem pestanejar: caso isto aconteça eu desisto de gravar discos solo. West, do seu lado, ouviu tudo e deixou rolar.
Analisando ambos se vê uma enorme diferença. Curtis é, sem sobra de dúvida, um disco fraco. Se comparado aos álbuns anteriores (Get Rich or Die Tryin’ e The Massacre) não apresenta diferenças. Claro, há momentos dignos de nota como “AYO Technology” (com Justin Timberlake e Timbaland) e “Follow My Lead” (com Robin Thricke), mas não garantem a média e a aprovação fica para o ano que vem.
Graduation a história é outra. É perceptível e admirável nas primeiras audições o crescimento do aluno dedicado que Kanye West é. Cada vez mais distante dos “batidões” do gangsta (marca de 50 Cent, por exemplo) West aposta em melodias surpreendentes que dialogam com, por exemplo, com o electro do duo francês Daft Punk (na ótima “Stronger”), utiliza samples da velha guarda da música negra (a belíssima “I Wonder” tem como base “My Song” de Labi Siffre, poeta e compositor) ou deixa o piano conduzir a canção (“Everything I Am”). Como se bastasse, estabelece dialogo não somente com colegas de classe (o sempre aplicado Mos Def marca presença) como também em outras áreas via Chris Martin do Coldplay que aparece em “Homecoming”. E sem deixar de render homenagens a quem merece “Big Brother” está lá dedicada explicitamente ao mestre (o citado Jay – Z).
E o resultado final nesta verdadeira batalha de gigantes teve como vencedor, e de forma merecida, Kanye West que vendeu 957 mil cópias contra 691 mil do adversário.
Por fim, cito sabiás palavras proferidas por West, pois como afirma na abertura de Graduation em “Good Morning”: “people graduate but still stupid”. Sim, ele já alcançou a graduação, mesmo se registrando tardiamente (Late Registration, grande disco anterior a este) e ruma para a pós, mas almeja algo ainda melhor. Não se cansa de crescer. E digo não somente em público, mas também como pessoa já que anseia algo melhor não somente para si: busca melhorias também para o mundo (para quem não sabe West é ativista político e participou do Live Earth evento organizado por Al Gore).
E que fiquei a lição para 50 Cent e seus asseclas: seus dias de baderna estão contados. E se você quiser sair mesmo dessa vida Kanye pode lhe ajudar. Dias atrás ele ajudou ao Common a produzir um discão (Finding Forever) coisa que ele não fazia há tempos...

* Em referência ao álbum de Lou Reed lançado em 1980.